José Gil & Alice

GIL-700px-72dpi

Alice: Vou começar com uma pergunta que, se calhar, o vai aborrecer, mas gostava de saber se está zangado com Portugal?

José Gil: Não.

Alice: E desencantado?

José Gil: Também não, porque nunca estive encantado. Conhecia muito mal Portugal, passei cá dois anos quando vim de Moçambique e depois fui para França, onde vivi praticamente a minha vida e só agora voltei para Portugal.

Alice: Escreveu 15 livros em francês e agora “Portugal. Medo de Existir”, em português. Pensa em francês ou em português?

José Gil: Quando penso por palavras, penso em francês, com uma mistura de português, de vez em quando. Mas penso muito mais por visões e imagens do que por palavras.

Alice: Qual é a imagem ou visão que lhe oferece Portugal?

José Gil: Não é assim que se passa. O pensamento passa por uma espécie de intuição em que há uma imagem que desenvolvo e traduzo numa série de relações possíveis. Agora, eu não tinha uma imagem de Portugal, nem sequer me parece que este livro dê uma imagem de Portugal. Este livro dá uma perspectiva, entre muitas, do que se pode dizer de Portugal. Não é bem de Portugal, é de uma série de portugueses, dos portugueses que me interessam pelos seus comportamentos que provocam uma paralisia da acção. Esta paralisia já vem de longe e impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos. E foi por isso que escrevi sobre estes comportamentos, para podermos designá-los e assim fazer qualquer coisa contra eles.

Alice: Este livro já vai na 7ª edição e os outros 15 não eram praticamente conhecidos dos portugueses.

José Gil: Isso tem a ver com a natureza dos livros que escrevi, que não eram para um público largo, vasto, e tem a ver com a natureza deste livro. Nunca esperei ser conhecido ou reconhecido na rua.

Alice: Consegue ter uma imagem do leitor do seu livro?

José Gil: Pode ser o senhor do táxi, a empregada do café, estou a falar de pessoas reais e depois, claro, os intelectuais.

Alice: Como é que um filósofo que tem um nível de pensamento tão elaborado e utiliza palavras como “transcendência” e “fenomenologia” desce à terra e usa palavras como “burgesso”, que decerto não fazem parte do seu léxico?

José Gil: Eu oiço, aprendo na gíria. Essa história do filósofo que não desce à terra é um bocado uma fábula que vem da Antiguidade na Grécia. É verdade que há um reconhecimento necessário, mas nos meus cursos, mesmo os que dou em seminário de mestrado, procuro sempre traduzir o mais difícil, quando é possível, em imagens claras, às vezes até exemplos empíricos.

Alice: O seu livro distingue dois tipos de medo: o vertical e horizontal. Os seus alunos têm medo de si?

José Gil: Eu diria que não, mas o medo que eles têm e que existe em Portugal não depende da vontade, é um medo incrustado, possivelmente vindo de uma certa atitude de apreensão que nasce espontaneamente. O medo herda-se, é interiorizado e estende-se a toda a superfície social, impedindo-nos de expandir a nossa potência de vida.

Alice: O que é o medo horizontal?

José Gil: É o medo que vemos nas caras das pessoas na televisão, quando perdem um emprego. É um medo que se tem quando se avança com uma estratégia de competitividade num mercado para ver se a iniciativa vence ou não, é o que resulta hoje precisamente da rivalidade e das condições cada vez mais difíceis no mercado de trabalho. O medo de agir, de tomar decisões, de criar ou arriscar.

Alice: Porquê “medo de existir” e não “medo de viver”?

José Gil: Viver pode ser interpretado mais como uma vida biológica, o puro acto de viver biologicamente. Agora existir é estar no mundo, agir, pensar, viver, morrer – é um conceito mais vasto.

Alice: Quando disse que pensava por imagens ocorreu-me que no livro fala frequentemente do nevoeiro que não se vê.

José Gil: Em termos de psicologia clássica, se falarmos de um campo de consciência, é o que se apresenta numa consciência num dado instante, partindo da percepção no espaço que está a percepcionar, do tempo que se está a viver, etc. Ora esse campo de consciência não é transparente, como nós julgamos, quer dizer que neste momento no que eu vejo e no que vem à minha consciência há imensos “brancos”, ou seja espaços de consciência que não estão preenchidos. Ou porque o movimento das coisas é demasiado rápido ou porque precisamente há coisas que não quero ver inconscientemente porque me fazem mal ou não interessam. O que faz com que possamos dizer que há uma espécie de escuridão mesmo no interior da claridade. Eu chamei-lhes espaços brancos. O nevoeiro é o plano invisível da não-inscrição, é um buraco, uma lacuna. É constituído por camadas de confusão que não se vêem, como um inconsciente alojado no interior das representações mais conscientes.

Alice: Diz algo curioso no seu livro: o português revê-se no pequeno. O português também não é aquele que sonha muito alto?

José Gil: Depende do português de que estamos a falar e de que época. O português encontra no pequeno o tamanho adequado ao seu investimento afectivo. Vive do pequeno e reconforta-se no pequeno: os pequenos prazeres do bolo, da conversa, do cigarro, disto e daquilo, pequenos amores, pequenas ideias. O grande desejo de qualquer coisa que nos obceca, que se apodera de nós, nos prende e desenvolve e amplifica as forças, quase não existe.

Alice: Reconhece em si algum dos defeitos que apontou aos portugueses no seu livro?

José Gil: Isso não tem a mínima importância. Essa é uma pergunta que quer entalar a pessoa.

Alice: Não é essa a minha intenção.

José Gil: Espere, espere, eu não estou a dizer que está a querer, o que estou a dizer é que essa pergunta permite, por ela própria entalar a pessoa num ego e eu tenho horror a esses egozinhos. Quer eu diga sim, quer diga não, isso reenvia para mim, para o meu eu. E o meu eu, o que é? Nada de importante. Qual é o interesse de saber o que é que sinto? Há uma pergunta idiota, não é a sua, há uma pergunta que já deve ter reparado que se faz sempre e constantemente no meio de um acontecimento qualquer que alguém acaba de viver e então estende-se o microfone para a pessoa e pergunta-se “O que é que sentiu?” E isso é comum ao português, ao francês, ao inglês.

Alice: Se escrevesse um livro que fosse o pólo positivo deste, como se chamaria?

José Gil: Este livro, que se chama “Portugal. O Medo de Existir” teve a reacção de um livro que se está escrevendo, espero eu, muito tenuemente, chamado “Portugal. O Desejo de Existir”, através de uma rede que não se constitui visivelmente e que é a dos leitores.

Alice: É a realidade que o vai escrever?

José Gil: Espero que sim. Este livro pode desencadear isso. Há já esse desejo e a prova é o número de vendas deste livro – já se venderam mais de 30 mil – e não vejo outra explicação. As pessoas não compram este livro para se flagelarem.

Alice: A sua entrevista vai sair numa revista sobre criatividade. O que acha do discurso publicitário?

José Gil: Eu acho que há uma inflação nas palavras criatividade, conceito, há todo um conjunto de palavras que são muito fortes e que são utilizadas duma maneira quase leviana, pelos métodos que a própria publicidade – e note-se que não estou a criticá-la – emprega. São métodos eficazes, mas que simplesmente não têm a complexidade, longe disso, que tem o processo de criação de um pintor.

Alice: Os artistas são aqueles que permanecem crianças toda a vida?

José Gil: Eles podem e têm a capacidade de facilmente devirem crianças, de se tornarem crianças de novo e regressarem depois ao estado adulto e têm esse poder muito mais desenvolvido do que o homem comum. Olhe, eu tenho uma aula às duas horas. Quer acompanhar-me até à porta da Universidade e continuamos a falar?

Alice: Claro que quero. Queria perguntar-lhe o que é que lhe interessa em Fernando Pessoa?

José Gil: Mil coisas. A expressão aguda e clara daquilo que aconteceu com muitos artistas estrangeiros do princípio do século e que nós chamamos de heteronímia e que em Fernando Pessoa atingiu uma clareza e uma definição como não atingiu em mais nenhum.

Alice: Afinal, quantas almas tinha ele?

José Gil: Devia ter uma infinidade delas, ou pelo menos um número finito mas grande.

Alice: Porque é que as pessoas estão tão interessadas em cultivar o corpo nos ginásios e não estão preocupadas em cultivar a alma?

José Gil: É precisamente porque puseram agora a alma no corpo, transferiram-na para a imagem do corpo e há uma ideia de que dando o máximo de energia ao corpo e o máximo de juventude, perfeição, etc, todas essas propriedades que são facilmente manipuláveis corporalmente, se transferem para o espírito e assim vamos “rayonner”.

Alice: Pardon? Rayonner vem de rayon, raio?

José Gil: Sim. Significa que vamos irradiar.

 Alice: Vai dar uma aula de que disciplina?

José Gil: De Estética.

Alice: Qual vai ser o tema?

José Gil: Vamos falar de uma coisa difícil que é o princípio ontológico que se chama a univocidade do ser.

Alice: Por que motivo é tão difícil estudar filosofia? Qual é o segredo para se ser um bom professor de filosofia?

José Gil: Sabe, é porque os alunos se esqueceram, e talvez os professores também, de que foram crianças. Porque aos quatro, cinco anos, as crianças põem perguntas como “porque é que uma árvore se chama árvore?” e os porquês são tantos, que são pura metafísica. Há uma série de dispositivos que querem constantemente modelizar, criar comportamentos standard, uniformes, para uma série de situações.

Alice: Concorda com Gilles Deleuze, que dizia que é muito difícil explicarmo-nos? Quando dá uma entrevista receia que as suas palavras sejam manipuladas ou descontextualizadas?

José Gil: Um bocado. Já vi como às vezes se transformam as palavras. Agora, explicar o que se quer dizer, isso é sem dúvida difícil. Nós temos uma experiência que é sempre extremamente ramificada, com efeitos que não podemos exprimir. Às vezes tem que se ir lá com uma pinça microscópica para se apanhar isso.

Alice: O que aprendeu de mais importante com Gilles Deleuze?

José Gil: A pensar segundo a diferença, que é a mais difícil das tarefas.

fragmentos da entrevista dada no Verão de 2005 / fotografia de João Cardoso Ribeiro 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

4 respostas a José Gil & Alice

  1. nanovp diz:

    Gosto muito da lucidez das respostas e da franqueza das perguntas…

  2. mónica diz:

    ora bem verão 2005 para quase verão 2014 vão 9 anos, grande livro sim senhora

  3. adelia riès diz:

    Continue a publicar as entrevistas que nunca tive a ocasiao de ler. Recupero de 40 anos de ausência. Obrigada.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Tenho gostado de ler as entrevistas. Boa ideia!

Os comentários estão fechados.