Kung Fu – Grasshopper a Master Po

O SOL ESTÁ FUNDIDO

Vou mudar de vida.
Não vou deixar as letras.
Vou só deixar de escrever.
Passo a leitora definitiva.
Tiro o rabo da cadeira e no mais
dedico-me a uma vida activa.
Monto um estúdio
com o dinheiro que não tenho,
uma escola de kung fu que não sei.
Tenho sonhos orientais de shaolin e wudan
– se acreditasse neles falava só mandarim.
Quem me dera ser uma daquelas criaturas
premeditadas pela encarnação
como nas ficções e
ter nascido já pré-cozinhada.
Qualquer forma de kung fu me serve,
não sou esquisita. Mas prefiro vir de um templo
para o mundo. A base formal é outra.

Assim como está, não dá, Master Po:
o meu sol fundiu-se.
A verdade é que isto é uma grande chatice:
toda a gente cresceu menos eu.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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12 respostas a Kung Fu – Grasshopper a Master Po

  1. Paula Santos diz:

    Que bom! Que bom! Que bom! E como me senti vestida com essa sua escrita tão ao meu gosto. 😉

    Mais uma vez obrigada por estes instantes que nos fazem o todo. Um dia feliz!

  2. riVta diz:

    Saltitar entre orações é o que é!

  3. Talvez a Eugénia possa dizer à Grasshopper que há uma grande diferença entre um pequenino eclipse (mesmo dois ou três) e fundir-se o sol.

  4. nanovp diz:

    Um ideia que me tem atraído Eugénia, deixar as coisas para trás e fazer outra coisa com o dinheiro que não tenho….

  5. a.r. diz:

    Quem escreve é mais Fada Sininho que Peter Pan.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Quando começamos a ver o Sol como um buraco negro, a coisa está preta.

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