Litha, o ‘Homem Verde’ e Kepler

Peter Paul Rubens - "A Peasant Dance"

Peter Paul Rubens – “A Peasant Dance”

Nuvens, para que vos quero? Ide para outras paragens e comungai com o oceano dissolvendo-vos nele. Deixai que Portugal seja inundado pela festa da luz máxima do Sol, o dia maior e a noite menor do ano. Permiti que sob o brilho solar neste dia evoque com alegria Litha, a deusa celta da água e o ‘Homem Verde’, símbolo folhoso do ressurgimento da Natureza. Que sejam convocadas todas as “tribos” da tradição pagã para que venham e se divirtam juntas em rituais mágicos. Que venha a festa de agradecimento pelas energias novas no verão. Que sejam colhidas ervas de poderes infindos. Que sejam queimadas as preocupações do ano decorrido entre o Solstício de Verão de 2013 e este. Que vicejem com prodigalidade na estação do fogo hoje nascida os bens que a Terra pode ofertar. Que se reúnam as gentes nos locais sagrados por todo o mundo para ampliarem o efeito da cura planetária.

Abençoados somos por não termos país assente na linha do Equador em que a duração dos dias é fixa ao longo das estações do ano com dúzia de horas de luz e outras tantas de noite. Além da monotonia pela inexistência de ciclos solares, seria aniquilada a força masculina Yang que no Hemisfério Norte atinge hoje o seu ponto alto e facilita quotidianos prolongando horas de luz diurna a permitirem realizar tarefas com tempo de sobra para repouso e divertimento. Lá em cima, o Sol está em conjunção próxima com Vénus e Marte no Trópico de Câncer e os três alinhados com Neptuno, o planeta dito do espírito, do «eu interior», da necessidade do sobrenatural.

Glorioso Kepler que, no alvor do século dezassete, contradisse Aristóteles e Ptolomeu ao defender o movimento da Terra em torno do Sol e provou matematicamente serem elípticas as órbitas e variáveis as velocidades dos planetas.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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22 respostas a Litha, o ‘Homem Verde’ e Kepler

  1. Pedro Bidarra diz:

    Adoradora de RA

  2. el chato diz:

    O Sr. Kleper com os seus cálculos matemáticos e o seu telescópio, varreu para debaixo do tapete da ignorância o homem verde. Não sei de há por aqui uma prof de matemática que gosta de espreitar pelo lado errado do telescópio e depois não enxerga a verdade. Contudo é interessante brincarmos ao anões verde e as brojas a cavalo nas suas vassoritas, sempre podemos voltar á nossa meninice.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Excelente humor. Gostei!

  4. juan diz:

    Que pena não existir um Kepler no nosso século que equacione um novo modelo económico e que prove que o modelo atual está errado para os paises que orbitam o centro da Europa, devido ao seu ritmo económico variável e sensível ao mais ténue desalinhamento dos ‘mercados’.
    E aí sim… “Dei­xai que Por­tu­gal seja inun­dado pela festa da luz máxima do Sol … “

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Mas pululam «Keplers» no mundo também ao serviço dos modelos económicos. A questão, julgo, é outra: interesses turvos não permitem que sejam ouvidos.

  5. Bem iluminado post. Apanhei na A1 uma chuvada de não se ver um metro à frente do nariz. Era tudo a guiar aos apalpões. Precisamos de um Rubens que pinte a dança camponesa dos automóveis na auto-estrada.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Na pintura, vários são os artistas em cujas telas figuram as danças insanas das «latas» que conduzimos. René Magritte, Marcello Petisci em “Trafic”, Philip Castle, Bruce Bomberger, são alguns que o fazem com mestria. Até o Dali brincou com o tema.

  6. areis diz:

    Até aos 50 km/h manda o condutor, do 50 aos 90 km/manda o carro, depois dos 90 manda o diabo.

  7. riVta diz:

    rica celebração

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Andam tão esquecidos os rituais que sempre uniram e unem o Homem à Terra…

  8. a.reis diz:

    Os mitos ligados as culturas extintas podem revelar-se hoje ausentes de significado, pois a sobrevivência do planeta, tal como o conhecemos actualmente, parece estar ameaçada. A ecologia e as ciências que com ela comunicam vieram ensombrar esses mitos. Essas celebrações não passam de atividade ludico-folclórica, para passatempo dos participantes que gostam de motivos para se divertir. É um direito que lhes assiste e o comércio agradece.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      a.reis – concordando em parte com o que escreveu, lembro que alguns mitos e rituais pagãos têm ainda hoje forte implantação. Lembro a maçonaria e o Grande Arquiteto.

  9. a.reis diz:

    O paganismo refere-se a religiões politeístas, julgo que o conceito pagão se refere a religiões não abraâmicas.
    Pelo que li, a maçonaria baseia-se também na existência de um Grande Arquiteto.
    Parece que este culto é hoje, em Portugal, meramente utilitário, não sendo mais de um veículo de ascensão e de requeridas imunidades. No passado teria tido objetivos nobres como por exemplo a independência e fundação dos EUA, etc.
    É o que posso adiantar irmã. Lol.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E não é que está pejado de razão?!… Olha de que exemplo me havia de lembrar! As pressas quase sempre dão em asneira. Foi o caso.

  10. nanovp diz:

    Elípticas como a vida Maria do Céu…

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