Morreste-me* Divagações 2

Uma história que iniciei há um ano e meio. Ainda resiste. Por cima de mim. Mais do que eu.

Uma história que também me vai contando. Nunca me morreu um pai. Mas vão-nos morrendo. Vamos morrendo. Vamos acumulando pó em cima de saudades. Essas como as estrelas, nascem mais do que morrem. Ficam para sempre. Sempre é muito tempo. Um tempo que só as saudades e as estrelas aguentam. Tudo o resto um “segredo terrível em que me sinto a única a saber e a não poder contar a ninguém”.

E mais do que o texto, o pretexto. O pretexto que me reinventa nas entre linhas. E as diferenças do primeiro Morreste-me, para o que se vai realizar no sábado são absurdamente assustadoras. Já me morri e renasci vezes sem conta. E vou contar de novo, como se fosse a primeira vez, aparentemente a mesma história. No Teatro é sempre a primeira vez. Mais do que o texto, o pretexto. Sempre. Quando deixar de ser a primeira vez, demito-me.

O último foi há 5 meses, num Janeiro que uniu céu e a terra em tempestade. “Só chuva grossa e correntes de água fria nos vidros foscos do carro. A chuva pesada, o peso inteiro da água e do céu a vergar árvores e costas”.

A carrinha já vai na estrada, o João, o Félix e a Cris adiantam-se. Mas eu  já estou lá. Sentada sozinha à espera que o público venha. Bebo mais um pouco de água. Ponho spray na garganta com medo que me falte a voz, a coragem, a memória.

“Vou. Avanço e regresso e cada quilómetro um ano e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos neste caminho que fizemos tantas vezes juntos e avançam, avançam as estações do ano: a primavera, verão, o outono e o inverno. Avanço para o que fomos neste sítio onde entro como se caísse vertiginosamente. E há tanta luz. Há os instantes que vivemos mil vezes juntos e que agora nascem sem nós e nos ultrapassam.”

Arrancar este Morreste-me (que já não é da memória é da saudade) custa tanto como arrancar um pico do dedo do pé. Espreme-se, dói e depois o alívio.

Ouvir aquelas músicas, cheirar aquele cenário, ouvir os meus passos duvidosos, únicos, o batimento cardíaco. A espera. É inebriante. Muita emoção para um corpo só. E o ritual, vai repetir-se desta vez numa primavera, “onde tanta luz encandeia.”

À rasquinha, com miaufa, mas também com muita vontade para o próximo sábado. Ponte de Lima, promete.

morreste-meSábado 07 de Junho. 21:30. Teatro Diogo Bernardes. Ponte de Lima.

Estão todos convidados a aparecer.

Nota: “Morreste-me” é uma adaptação para teatro (monólogo) da obra de José Luis Peixoto. Teve a sua estreia em Janeiro de 2013.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Morreste-me* Divagações 2

  1. cc diz:

    Li o livro mal saiu, não o imagino representado. Mas Ponte de Lima é muito longe…
    Fica a vontade…
    ~CC~

    • Sandra Barata Belo diz:

      eu gosto muito de o representar, e longe é o céu 🙂

      • Susana diz:

        Parabéns Sandra. Tive oportunidade de ver a peça em Ponte de Lima e não tenho palavras para descrever todas as emoções que vivi, que revivi, e que imaginei viver…A Sandra foi simplesmente brilhante. Obrigada por nos ter dado este momento.

  2. O que é lindo em Lisboa, é lindíssimo em Ponte de Lima.

    • Sandra Barata Belo diz:

      o teatro, a literatura, a poesia são sempre lindos. mesmo quando são maus 🙂

  3. nanovp diz:

    O título sempre me seduziu , mas não li…grande e belo desafio Sandra…e logo em Ponte do Lima que traz muitas saudades…

    • Sandra Barata Belo diz:

      lê-se num instantinho.
      Ponte de Lima das saudades, é ja ali ao lado 🙂

  4. Lúcia Paiva diz:

    Em Ponte de Lima estão minhas “raízes maternas”…talvez a 20ª geração ancestral…(gosto de Genealogia) ..gostaria de ir – já pisei alguns palcos na juventude – mas estou do outro lado do Atlântico…no Nordeste do Brasil. Muito sucesso,

  5. Celeste Macedo diz:

    Parabéns Sandra. Vi a peça, esta noite, em Ponte de Lima e adorei. voltava a ver e a rever e certamente, a cada vez, voltava a viver as mesmas emoções e voltaria a deixar cair uma lágrima.

Os comentários estão fechados.