No Descalçar da Meia e na Alça Caída

 

 

Roy Lichtenstein (1923-1997) - Landscape with figures and rainbow, (1980-1989)

Roy Lichtenstein (1923-1997) – Landscape with figures and rainbow, (1980-1989)

Assim fora, assim nunca seria. Ela que sempre e nunca rejeitava usava-os vezes demais. A incoerência reclamada como defesa e arma para advires etéreos. Não conjugava futuros. Ou conjugava pelo gozo da negação imediata – sabia da pequena esfera recolhida junto ao nervo/comando da visão. Talvez morte, talvez vida. Esquecia-a. Lembrava-a se entretinha a tentação do prever. Ceifava-a como na infância vira nas terras fecundas pela natureza e regas.

Montanha ao alto, vale em música de cantares/alívios de corpos doridos. Lobos à espreita, raposas arrebatando poedeiras que supriam misérias. Da verdade antiga aos recontos aconchegados nos colos das matriarcas. A menina, ao tempo, das labaredas conhecia as das lareiras confinadas à pedra, castanho velho por remate. Já não assistia às queimadas nos campos nus onde o Outono descia manto de cinza fria.

Na urbe, do centro, capital, dez meses de existir: escola, liceu, faculdade. Na geometria parental, a criança era o terceiro vértice. Vazio o outro que desejava ocupado por laço fraterno. Sem ele, ficava a menina debulhando leituras e, pelo carvão, no «cavalinho» registando falhas e fantasias.

O quarto de brincar, excessivo, recolhia a criança só. Sem primos na rua de baixo ou de cima ou na cidade que pelos afetos e birras habitassem a irmandade possível. E lembrava da casa beirã o baloiço pendurado no braço robusto da nogueira velha e formosa. O teto de folhagem e frutos verdes. O vaivém que, nas férias serranas, o primo de Lisboa arrojava rápido e alto. _ Voa! Voava. Sem medo. No Jorge, constelava universo de confiança. Como no pai, cúmplice e autoridade. Como no tio franciscano. Como no avô que musicava os dias em pautas de alegria nos acordes da viola afagada pela tarde quase extinta. E havia fogo e turquesa no recorte do vale descido da Estrela até ao Buçaco que os malvas extinguiam do ver.

Dos homens e mulheres entendeu o visto entre paredes de amor. Eles, laboriosos, providentes e previdentes, ternos, base e fundo da confiança. Elas, companheiras, voluntariosas, pondo e dispondo com autonomia sob o tule do véu que levavam à missa de incensos e altares de tranquilidades floridas. Só na aparência submissas. De facto, senhoras donas da família.

A crisálida no seu casulo, mais cedo do que o previsto, teve mulher com criança dentro. Pela dormência das sestas adultas, na infância, constituíra reinos solitários e da precária liberdade experimentara a magia, aprendeu contenção e o contrário. No silêncio, jogar ao faz de conta. Uma e outra e outra figura. Personagens múltiplas que viria a integrar enquanto despia e vestia sedas da mãe copiando gestos de filmes que o preto e branco descoloria. Mal equilibrada nos saltos, encenava graça e langor no palco que o espelho devolvia. A sedução da mãe, das mulheres de Hollywood repetidas no descalçar da meia e na alça caída do ombro por suave estremecer. Anos depois, sua. Egoísta pela relevância do querer, houvesse ou não quarto cheio de homem que a visse.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a No Descalçar da Meia e na Alça Caída

  1. riVta diz:

    e os sonhos?

  2. Sonho de criança:

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Vídeo magnífico. Eu que me perco por filmes de animação, delirei também com a música. Obrigada.

  3. Gosto do balouço na braço robusto de uma árvore. Um balouço desses bem merece o rainbow do Lischstentein.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      O Roy Lischstentein merecia mais. Não é que o malandro raramente pintou ‘landscapes’? No período da obra publicada, ainda estava «amarrado» aos semitons de Picasso.

  4. nanovp diz:

    Pois, os sonhos podem ser memórias para o futuro….

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    E de que modo! Depois, o futuro enche-se das memórias dos sonhos e empardece.

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