No, Tu No!

Os “Nãos” universais do nosso MSF fizeram-me ir buscar este “Vengo Anch’Io, NO, Tu NO!” do grande Enzo Jannacci, Milanês doc, acídulo e rosnador, personagem de mil máscaras e chapéus de sena que deixou a Itália e Milão mais pobres o ano passado quando decidiu que andava anche lui lá para a terra das eternas canções. Pai do ligeiro mas deliciosamente auto-irónico rock italiano dos anos sessenta, fez-se amigo e cúmplice de outros dois grandes trovadores da Milano proletária, o Giorgio Gaber e o Adriano Celentano. No prolífico showbiz Italiano dos anos 60 e 70 fez um pouco de tudo. Tocou com Stan Getz, Gerry Mulligan, Chet Baker e Bud Powell. Abandonou-se aos prazeres vaporosos do cabaret e de uma comédia schizoide muito sua. Fez e escreveu teatro com Dario Fo e cantou os esforços do Bartali ao piano com Paolo Conte. Esteve em cena com Marcello Mastroianni e Ugo Tognazzi e escreveu o hino do Milan. Fez televisão e karate desferindo idênticos golpes de mão a quem lhe estava pela frente. Inventou canções e lançou discos até ao fim.  De humanista inspirado, revolucionou-se contra quase tudo mas pactuou cinicamente e sem remorsos quando lhe apeteceu. Nunca se comprometeu.

Ah e já me esquecia. De dia ia trabalhar. Era cirurgião cardiólogo. Tinha estudado na África do Sul com o grande Christian Bernard, aquele que em Cape Town e pela primeira vez, passou um coração de um praticamente-morto para um sortudo quase-vivo. Dizem que também era bom nisso.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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2 respostas a No, Tu No!

  1. nanovp diz:

    Porra! Um verdadeiro homem renascentista….

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