O cinema, essa arte católica

Não foi bem ter-me esquecido. Foi mais pensar que esta crónica, escrita no Expresso, sábado, 31 de Maio, ficava melhor se fosse publicada aqui num domingo.
La-última-cena-de-Viridiana-de-Luis-Buñuel

Saía-se de um Buñuel com alma de crente

É altura de ajoelharmos. Faça-se justiça ao catolicismo. Essa religião de genuflexões, de padres-nossos e ave-marias, de em nome do pai e do filho, de mea culpa, mea culpa e salve-rainhas, é a mais cinematográfica das religiões. O catolicismo fez-se para plongées de púlpito, contra-plongées de altar, para o grande plano de sacrário, hóstia e cálice, para o plano geral da peregrina luz no interior de uma catedral. Vai-se à missa como se vai ao cinema e, em noites felizes, saía-se do cinema com a alma de crente que uma missa lavou.

Dou exemplos:

  1. Não é só por serem católicos, mas pense-se nas obras-primas de Hitchcock, Ford, Buñuel, Rossellini ou do nosso profético Manoel dos cem anos. O catolicismo (ou o anticatolicismo essa pequena e indiferente variação) é a torrente subjacente ou explícita de “I Confess”, de “Seven Women”, de “Viridiana”, de “Roma, Città Aperta”, de “Benilde, ou a Virgem Mãe”.
  2.  E mesmo o prosaico Frank Capra, onde é que julgam que ele desencantou o anjo de “It’s a Wonderful Life”, senão na catequese que os pais italianos o fizeram frequentar?
  3. O cinema foi criado para o milagre. Para a irrupção abrupta e inexplicável do irracional e do maravilhoso. Acredito: basta-me o milagre de “Viaggio in Italia”, de Rossellini, o paralítico que anda, as muletas no ar. Rimos e choramos: um paralítico corre para que um casal, Ingrid Bergman e o improvável George Sanders, se reencontrem e redescubram, pelo espírito, a carne um do outro. Carne da minha carne.
  4. Num western, longe de batinas, turíbulos e confessionários, foi onde mais bem se filmou o perdão. John Wayne, herói de “The Searchers”, após busca obstinada, apanha a sobrinha que os índios raptaram e já tocaram com mais de um dedo. Vai matá-la para a libertar do pecado mortal. Levanta-a aos céus, o mais maldoso e negro olhar que olhos alguns já tiveram, e numa convulsão, que alastra do ecrã à sala, a culpa e o ódio são varridos pelo vento do deserto e, meu Deus, faz-se em John Wayne segundo a Tua palavra. A imagem dos duros braços de homem que, em paz, descem Natalie Wood ao chão é a mais redentora imagem da iconografia ocidental.

É uma mínima lista, uma oração da manhã. Hei-de voltar com outra, de Dreyer a Coppola, de Pasolini a Scorsese, para as orações da noite.

I Confess

Pelas ruas crísticas da amargura de Hitchcock

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a O cinema, essa arte católica

  1. Pedro Bidarra diz:

    Amen.
    Pronto, já despachei a minha missa de domingo. Posso ir para a paria.

    P.S.: Não esqueças a magnífica batalha no rio de lava entre o bem e o mal, entre o mestre e o anjo caido nos quintos do inferno. The revenge of the sith, Star Wars III

  2. Se estas são as Matinas, venham as horas canónicas todas. É, vá, a conversão dos convertidos.

  3. nanovp diz:

    Há filmes que são verdadeiras “homilias”, convertendo espectadores sessão após sessão…

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