O sem-sonhos (3)

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Desde que os cidadãos se disponibilizaram a partilhar os dados biométricos através dos dispositivos móveis que voluntariamente adquiriram e passaram a transportar consigo – ligando a sua biologia à rede –, tornou-se possível monitorizar quase todos os aspectos da sua psicofisiologia em particular o estudo dos padrões electrónicos da mente e, assim, dos sonhos.

Um sonho recorrente é também um padrão electrónico recorrente no cérebro. Hoje é possível, através de algoritmos complexos, correlacionar a actividade cerebral de milhões de indivíduos com múltiplas variáveis socioeconómicas e conseguir, deste modo, obter mapas da evolução mental da sociedade, entender, e até mesmo prever, movimentos e tensões sociais. É uma espécie de sociometeorologia feita a partir da massiva quantidades de dados biométricos que a SIA recolhe diariamente; em particular dados referentes à actividade cerebral nocturna. Ao emparelhar a variação do número de recorrências oníricas com a variação de um conjunto de variáveis socioeconómicas relevantes, a SIA consegue avaliar o nível de coesão e o risco de disrupção social. Para a SIA, a ausência de sonhos recorrentes é um sinal de saúde e paz social.
Mas também há implicações (e aplicações) a nível individual. Analisando, por exemplo, a frequência com que um dado indivíduo sonha o mesmo sonho, a SIA consegue determinar, com grande probabilidade, a predisposição para complicações que resultarão da somatização de problemas não resolvidos. Uma informação preciosa para o cálculo do prémio do seguro vendida a bom preço a quem dela faz bom uso. Não é por acaso que as companhias de seguros estão entre os principais patrocinadores e parceiros da SIA.
O que os padrões cerebrais não revelam, ainda, é o conteúdo dos sonhos nem qual o problema que lhes subjaz. Esse é, ironicamente, o objectivo do departamento onde Boris trabalha. É aí que se faz a analise de conteúdo de sonhos, para que, no futuro, a narrativa onírica possa ser descodificada e interpretada a partir dos padrões electrónicos e electroquímicos do cérebro.

Todas as segundas-feiras, quando chega ao Departamento de Recorrências Oníricas da SIA, Boris tem na sua secretária, aleatoriamente debitada pelo sistema, uma lista de nomes de cidadãos que recorrentemente sonham os mesmos sonhos; cidadãos que, por sortes do sistema e por decisão de Boris – depois de analisados os padrões e eleitos os mais promissores – são mandados recolher para análise.

(continua)

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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