O sem-sonhos (4)

4

Quando acordava do pesadelo, aos comandos do avião que caia a pique sobre a cidade, Boris levantava-se de imediato para não correr o risco de voltar a adormecer. Tinha medo de voltar a sonhar porque tinha medo que a agência estivesse a registar os seus sonhos. A maior parte da noite passava-a a cirandar pela casa matutando nos seus dois problemas.

O que faria Boris se a agência descobrisse? O que faria sem este trabalho?
O trabalho era secreto. Se o despedissem não lhe dariam referências nem poderia dizer, nunca, de onde vinha. Tinha assinado um documento renunciando à sua história e ao seu curriculum. Se o despedissem por sonhar, seria com justa causa e teria muita dificuldade em explicar o que tinha feito nos últimos dez anos, sem mentir. E se mentisse seria apanhado porque também a mentira é monitorizada.
Boris teria que deixar de sonhar para não correr o risco de aparecer no sistema; e para que isso acontecesse teria que resolver o problema que desconhecia – o problema não resolvido que o fazia sonhar. Boris tinha dois problemas: o que desconhecia e o outro, que era, para si, o verdadeiro problema. Um pesadelo, enfim.

Mal o dia nascia, depois de noites passadas enredado em fios de lógica que o amarravam ao problema sem o resolver, e que nada mais faziam do que aumentar-lhe a ansiedade, Boris saía apressadamente de casa para a cidade. Para que o barulho, o movimento, a cor e as caras que passavam lhe saturassem os sentidos e o distraíssem bloqueando-lhe as memórias do sonho que a noite teimava em trazer.
No eléctrico, que corria sobre os carris que separavam a sua casa do laboratório, Boris sentia-se desconfortavelmente suspeito. Como se os cidadãos que com ele partilhavam a viagem soubessem que sonhava. Sempre que algum olhar cruzava o seu, sentia-se descoberto; se o olhar era simpático ou sorridente, Boris lia-o como um “Eu sei que tu és dos nossos, eu sei que sonhas”; se o olhar era de soslaio, hesitante ou disfarçado, Boris desconfiava que estava a ser seguido por alguém da agência e prestes a ser recolhido. Por fim, a lucidez e o bom senso sobrevinham e lá atribuía tudo à paranoia que nascia da ansiedade e das noites mal dormidas. Tratava-se apenas de gente normal que normalmente se dirigia ao trabalho.

O laboratório ficava num prédio inconspícuo igual a todos os prédios; igual, por exemplo, ao prédio onde nascera. Um edifício sem nome nem marcas nem nenhum sinal particular. Nada que indiciasse estarem ali os laboratórios da Surrealistic Intelligence Agency.
Antes de entrar no edifício, Boris parava numa banca da rua e pedia um café e um pão com manteiga. Enquanto mastigava voltava invariavelmente ao sonho e, com ele, à possibilidade de ser descoberto.
Imaginava dois agentes atrás da porta à sua espera, na escuridão da entrada que dava acesso ao laboratório. Atravessaria a rua, entraria na porta e, do escuro, materializar-se-iam dois agentes que lhe pediriam para se identificar e depois o conduziriam a um gabinete onde aguardaria. Aguardaria muito tempo até que por fim chegaria alguém; um dos chefes, um seu colega ou alguém que nunca tinha visto antes. Dar-lhe-iam um papel para assinar e mandá-lo-iam embora; na melhor das hipóteses. A pior das hipóteses não queria imaginar.

O café e o pão com manteiga não lhe sabiam bem. Era um sem-sonhos a sonhar, o que o convertia num vulgar sonhador, como toda a gente. Assim não teria lugar na SIA.

(continua)

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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3 respostas a O sem-sonhos (4)

  1. Bem sei que ainda não sei o resto da história, mas acho que Boris, se queria ser um sem-sonhos, podia ter vindo para Portugal. Mas é melhor não lhe dizeres, Pedro…

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Venha daí a continuação.

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