O sem-sonhos (6)

6

Depois de ter tomado o café e comido o pão com manteiga, Boris entrou no laboratório. À porta do prédio não encontrou ninguém à sua espera. Também ninguém o abordou quando atravessou o corredor até ao seu gabinete nem os que com ele se cruzaram o olharam estranhamente.

Como era normal todas as segundas-feiras, a lista de nomes debitada pelo sistema durante a noite estava à sua espera. Mas esta lista tinha algo de surpreendente. Quando a pegou, já concentrado nas tarefas que teria de levar a cabo, Boris leu o seu nome no rol dos sujeitos que o sistema (arbitrariamente?) tinha mandado recolher. O seu nome estava lá, no meio dos outros, com os gráficos do seu padrão cerebral e o número de vezes que o mesmo tinha ocorrido.
Não era nada que não pudesse acontecer embora nunca imaginasse que o seu caso lhe viesse parar às mãos. Esperava que um dia a brigada de recolha lhe batesse à porta de casa e o obrigasse a apresentar-se a um colega; esperava ser chamado por um superior; esperava uma carta a dizer para não se apresentar mais aos serviço; esperava tudo menos isto. O computador tinha-o escolhido duplamente: para analisar e para ser analisado. Uma tarefa impossível. Boris teria de adormecer-se, o que seria fácil, para depois se acordar quando se encontrasse a meio do sonho, o que era uma impossibilidade. Depois teria de narrar o sonho a si mesmo, gravá-lo e tomar notas.
Em alternativa poderia entregar-se a um colega para análise, o que acabaria, com toda a certeza, com o seu despedimento. Ou poderia, simplesmente, ignorar o facto do seu nome ter surgido na lista. Afinal havia sempre uns nomes que descartava por não os achar suficientemente interessantes ou promissores. Podia fazer o mesmo consigo. Podia ir ao sistema e apagar o registo das suas recorrências oníricas. Mas isso não resolveria o problema. Mesmo que apagasse tudo, todos os registos e todos os padrões, o que não seria tarefa fácil, embora Boris soubesse como o fazer, teria que deixar de sonhar para não correr o risco de voltar a aparecer no sistema. Para que isso acontecesse, era preciso resolver o problema que desconhecia para que o problema que conhecia se resolvesse.

Ao fim de um dia a pensar em soluções que nada solucionavam, Boris lembrou-se, enfim, de uma solução tão absurda como o próprio problema.
Observando o seu caso de fora, ou seja, como investigador, teria de reconhecer que os seus dados biométricos eram muitíssimo interessantes. Se fosse qualquer outro sujeito, um incógnito cidadão, Boris mandá-lo-ia recolher para análise; se tivesse de seguir o protocolo, a bem da ciência e da organização, mandaria recolher o sujeito que, por acaso, era ele mesmo.
Ora porque não mandar o sistema recolhê-lo e entregá-lo a si próprio. Porque não fazê-lo e ver no que dava?
Boris poderia ser acusado de sonhar, mas nunca seria acusado de não cumprir o protocolo.

(continua)

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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2 respostas a O sem-sonhos (6)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mais Boris amanhã, por favor…

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