O sem-sonhos (7)

7

A noite já ia a meio e o sono já estava na fase REM quando o agente bateu à porta do apar­ta­mento. Tinham decor­rido dois dias desde Boris lera o seu nome na lista debi­tada pelo com­pu­ta­dor e dera ordens ao sis­tema para que ele pró­prio fosse reco­lhido. Boris ali­men­tava a secreta espe­rança de que o agente, ao dar-se conta de que o sujeito reco­lhido para aná­lise e o ana­lista eram a mesma pes­soa, pen­sasse tratar-se de um erro, dada a impos­si­bi­li­dade e o absurdo da situ­a­ção. Nunca tinha acon­te­cido mas a situ­a­ção podia muito bem ser enten­dida como um engano sis­té­mico. Na pior das hipó­te­ses, se o fun­ci­o­ná­rio fosse dili­gen­te­mente estú­pido e o reco­lhesse e entre­gasse no labo­ra­tó­rio, Boris assi­na­ria a recep­ção de Boris e, mais tarde, apa­ga­ria tudo do sis­tema. Este era o qua­dro mais pro­vá­vel se tudo cor­resse de acordo com a lógica e a ordem da organização.

Quando abriu a porta, em vez dos dois habi­tu­ais agen­tes havia ape­nas um. Ou melhor, havia ape­nas uma. Uma agente que nunca tinha antes visto na SIA mas cuja cara não lhe era estra­nha. A mulher, ligei­ra­mente mais velha que Boris, muito bonita, com um rosto simé­trico, nariz fino, lábios sen­su­ais e cabelo apanhado, sor­riu. Boris reconheceu-a:
– Pro­fes­sora?! – excla­mou.
Não a via há mais de dez anos e não fazia ideia que tra­ba­lhava para a agên­cia.
Quis perguntar-lhe por­que razão estava ali, se tra­ba­lhava para a SIA, a que é que se devia a visita a esta hora tar­dia, mas ape­nas abriu a porta num implí­cito con­vite para que ela entrasse. Ela entrou.

– Con­ti­nuas a sonhar? – per­gun­tou a pro­fes­sora.
Boris, ainda boqui­a­berto, con­fir­mou com um aceno.
– Lem­braste de falar­mos sobre his­tó­rias com sonhos? – per­gun­tou a professora – Qual era o tabu?
Boris não se lem­brava.
– Pensa – disse a professora – É da tua memó­ria que depen­dente o fim da história.
Natá­lia, era esse o nome da professora, era especialista em fins. Um dos seus livros mais lidos, obri­ga­tó­rio para todos os aspi­ran­tes a fic­ci­o­nis­tas, algo a que Boris nunca aspi­rara verdadeiramente, chamava-se “O Livro dos Fins”, uma rese­nha e estudo exaus­tivo de todos os mais famo­sos fins da his­tó­ria da fic­ção.
– Qual era o tabu, Boris? – repe­tiu Natá­lia, pro­fes­so­ral.
– O tabu era que uma his­tó­ria não pode aca­bar com um “Acor­dei, era tudo um sonho” – disse Boris con­cen­trado. – Uma his­tó­ria que tem como fim o acor­dar de um sonho (com excep­ção da Alice no País das Mara­vi­lhas) é uma his­tó­ria que acaba mal – acres­cen­tou.
– Sabes então o que tens a fazer – disse a Natá­lia.
– Não posso acor­dar senão isto acaba mal – con­cluiu Boris.
Natá­lia con­fir­mou com um aceno e acres­cen­tou antes de sair:
– Con­ti­nua a sonhar que sonhas, até ao fim.
Boris vol­tou então para o cock­pit e empur­rou a man­che do avião que afo­ci­nhou, defi­ni­ti­va­mente, em direc­ção à polis despenhando-se com estrondo em cima da quo­ti­di­ana banca de café e pão com man­teiga.
Quando acor­dou estava morto.

Fim

 

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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4 respostas a O sem-sonhos (7)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É tão bom pilotar aviões em sonhos. E é terrível encontrar em vida a professora que no liceu se amou.

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu voo de braços abertos em sonhos. Nunca pilotei avião. Também nunca tive nenhuma paixão por professora nenhuma. Graças a Deus eram todas assexuadas caso contrário tinha repetido muito ano

  2. Maria diz:

    “Em sonhos é sabido, não se morre
    aliás essa é a única vantagem”

    Sérgio Godinho

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