Os cornos do touro ou vai-te despir que já te atendo

Os nossos leitores mais organizados já perceberam que o nosso “Está Escrito” anda num desatino completo. Devia aparecer aos sábados, mas cai dos céus a qualquer dia da semana. Acabou-se! A partir do próximo sábado, a Eugénia de Vasconcellos vai pôr tudo em ordem. Mas, hoje, ao participar num debate sobre a obra de João Bénard da Costa, dei comigo a falar de Bataille (cujo “O Erotismo” ele traduziu) e de Michel Leiris. Não resisto a trazer este velho e Triste texto a falar de um livro que me marcou tanto.

Escrever tem de ser ir para os cornos do touro, caso contrário vai-te despindo que já te atendo

Tenho obsessões. Prometi nunca as tratar. E volto, insisto, repito-me. Por exemplo, este livro:

Idade de Homem

Eu andava com um pé nos 17 e outro nos 18 quando comprei, na livraria da ABC, na baixa de Luanda, a “Idade de Homem”, de Michel Leiris. Hoje, não há já um português que se dê ao trabalho de ler um francês como este. Era Luanda, sobrava tempo e li as 222 páginas. Deixaram marcas. O livro de Leiris, poeta, surrealista, mas sobretudo etnólogo e amigo do Georges Bataille de “L’Erotisme”, era um livro de exposição pessoal. O autor oferecia de si mesmo um retrato implacável, arriscando por vezes uma auto-flagelação que ainda hoje me faz pensar se o verdadeiro rito de passagem para a viril idade não é a lúcida capacidade de nos auto-examinarmos e, com calculada injustiça, nos desvalorizarmos ao ponto de um certo escárnio.

É com esse exercício cruel que Leiris começa o livro, fazendo a sua descrição física: “…detesto ver-me de repente num espelho porque, não estando preparado para isso, acho-me sempre de uma fealdade humilhante”. Picasso, que era amigo dele, leu e disse-lhe com todas as letras: “Votre pire (ou meilleur) ennemi n’aurait pas fait mieux !” Outro pintor, outro amigo, Bacon, confirmou-o com este retrato que não mostra o que pintor via, mas o que Leiris catastroficamente era.

Leiris by Bacon

O propósito de Michel Leiris era o de desvendar como “a partir do caos miraculoso da infância se chega à ordem cruel da idade de homem”. Queria fazê-lo, afirmou, dizendo toda a verdade, um pouco mais até do que a irrisória verdade. Foi a primeira vez que vi, ou li, a literatura como uma forma (ou será mesmo um teatro) de exposição pessoal. O que, dito nestes lamentáveis termos, é a mesma coisa do que estar calado. Leiris jogava um jogo de alto risco e oferecia-se cristicamente: tomai e comei todos, este é o meu corpo. Ou, como o autor explicava, era esta a única forma de introduzir numa obra literária um risco aproximado à ameaça dos cornos do touro que os homens de lantejoulas enfrentam na arena. Escreves, arriscas-te — mostras-te, tens de ousar mostrar-te, na exterior e interior dimensão que, a um tempo, o lírico retrato de Bacon exibe.

Esta visão “da literatura como uma forma de tauromaquia” fascinou-me sem remédio. Ou se escrevia para nos pormos em causa, correndo-se o risco do equilibrista no circo, ou não valia a pena, o que me liquidou qualquer veleidade lírica ou outros arroubos sinfónico-literários. Ou seja, se andam a usar a pobre gramática, verbos, adjectivos e alguns advérbios de modo, para jogos florais, então é melhor deixarem-se sodomizar-se piedosamente em doméstico remanso. Ninguém tem de saber e não há cá maçadas para ninguém.

Mas será possível escrevermos e descrevermo-nos da forma desapiedada que Leiris propunha? Basta lê-lo para perceber que os segredos, os mitos (tão tocantes, o de Lucrécia, a mulher que se mata, e o de Judite, a mulher que mata), a encenação teatralizada são, mais do que os factos verdadeiros, a matéria da “Idade de Homem”. Neste livro catártico, onde Leiris percorre família, mulheres, masturbação, sadismo, sagrado e suicídio, para mencionar apenas alguns dos temas da sua vida, acabamos por descobrir que, por mais verdade que se queira pôr no retrato falado de nós, só conseguimos dizer-nos e contar-nos por símbolos, por mitos e por alegorias. O romance é o fio de Ariana do romance “autêntico” que quero (Leiris queria) tornar comunicável a outro. Romance é o que põe a nu o coração.

Para que conste, aqui fica a ficha do livro: “L’Age d’Homme” foi publicado em 1939, a pedido de Georges Bataille, numa colecção erótica. A edição portuguesa surgiu em 1971, na Editorial Estampa, e a tradução (excelente prosa) é de Maria Helena e Manuel Gusmão.

Curiosidade final, Leiris, no exemplar do livro que deu à mãe, assinou uma dedicatória reveladora: “À ma chère maman, qui lira dans ce livre des choses qui lui seront peut-être pénibles, mais qui comprendra — j’en suis sûr — qu’il ne s’agit là que d’injustices d’enfant, n’engageant pas la tendresse de l’âge adulte.  Michel

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Os cornos do touro ou vai-te despir que já te atendo

  1. Pedro Bidarra diz:

    A pessoa terá que se despir toda para escrever? Vou tentar escrever nú a próxima história. Com espelho à frente. A ver no que dá. E também vou tentar ler as lérias do Leiris. Mais um para a lista

    • E o que se poupa no ar condicionado, Pedro? O Leiris tem muita graça. E o Bataille e o Klossowski também. Era uma geração francesa muito rigorosa e inventiva.

  2. Há muitos anos, num congresso de psicanálise, Carlos Amaral Dias e Maria do Céu Guerra que também estava no painel, já na discussão, na parte da converseta também com a assistência, fizeram-me rir: ele fez uma observação a que ela respondeu: mas doutor, se fizesse psicanálise ficava sem matéria prima para representar.

  3. nanovp diz:

    Escrever sem nada, totalmente despido…tudo bem, falta só o talento, tantas vezes dissimulado nas grossas vestes….

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