Pedro Bidarra & Alice

BIDARRA-700px-72dpiAlice: Quando é que descobriste que eras criativo? Foi com 5 anos, no liceu, no conservatório ou quando te deram o primeiro briefing?

Pedro: Só quando cheguei à publicidade é que ouvi pela primeira vez a palavra criativo ser usada por dá cá aquela palha. Até aí criativo era um adjectivo, da classe dos bons adjectivos, como bonito, inteligente, interessante, íntegro, honesto, bom. Daqueles que, ou só reconhecemos nos outros ou desejamos para os nossos filhos ou que a modéstia impede de reconhecer em nós próprios. Ridiculamente, criativo é usado no nosso meio como substantivo, é usado para designar o cargo e não para qualificar o modo como ele se exerce. O ridículo que seria se em vez de sermos designados por, o criativo, fossemos, o inteligente. “Oh Paula, entrega aí essa OT aos inteligentes.” Ou ainda num café – “Então e tu fazes o que?” perguntou a Joana. “Sou inteligente numa agência de publicidade” respondeu o João. Quando eu era pequenino, com 5 anos (para voltar à pergunta) diziam-me que era cabeça no ar, ou um miúdo muito imaginativo. Quando estudava música diziam que tinha algum talento (algum, usado eufemisticamente para dizer “não me parece que vás a lado nenhum”). Só na publicidade é que alguém disse que eu era criativo, provavelmente a recepcionista quando alguém foi à minha procura e ela respondeu: “Bidarra!? Ah já sei, é o novo criativo”. Na faculdade, sobretudo nas cadeiras de psicologia experimental e de psicologia social, descobri que tinha jeito para resolver problemas (descobrir soluções). Quando estudei composição, aprendi uma linguagem capaz de comunicar sensações. Depois, quando escrevia estórias para um programa de rádio, descobri que conseguia que as pessoas ouvissem e sentissem o que eu queria que elas ouvissem e sentissem. Uma vez escrevi uma estória sobre um ataque de asma e a mãe de um amigo, que era asmática, telefonou-me a dizer que tinha ficado com falta de ar. Acho que foi nessa altura que descobri o meu métier. Depois, vim para a publicidade, onde tudo isto fazia sentido. Nunca pensei no meu trabalho como criativo mas antes como bem feito ou mal feito. O que descobri, já na publicidade, foi que tinha sorte.

Alice: O que é ter sorte em publicidade?

Pedro: Sorte é o que acontece quando, numa actividade onde há poucas regras escritas sobre como fazer e onde não há melhor critério que o subjectivo, as coisas resultam como planeamos ou como sonhamos. Talvez não seja sorte, mas gosto de pensar que sim porque se se acredita na sorte, também se acredita no azar, o que é um grande motivador para se estar atento, desperto e empenhado.

Alice: Consideras-te um criativo polémico?

Pedro: Cara Alice, depois de ter respondido que criativo é um adjectivo que me deixa desconfortável, acabaste de juntar dois. Criativo e polémico. Queres concretizar melhor a pergunta?

Alice: Tens alguma coisa contra adjectivos ou é mesmo só contra os adjectivos criativo e polémico?

Pedro: Não tenho nada contra adjectivos, apenas evito utilizá-los. Um adjectivo é sempre uma opinião do narrador mas também uma demissão. Quando eu digo “lá fora uma grande escuridão” estou a demitir-me de tentar fazer que o leitor veja ou sinta a escuridão que está lá fora. O leitor verá a escuridão que quiser ou que for capaz de imaginar. Se eu disser “lá fora está mais escuro que o sovaco de um grilo” seguramente se entenderá de que género de escuridão estou a falar. Quanto ao adjectivo “criativo”, volto à vaca fria (salvo seja). A sua vulgarização no nosso meio fez com que ele se tenha degradado e sido despromovido à condição de substantivo, nome de coisa. Em vez de servir para enaltecer o que se faz, serve para designar aqueles que (sejam-no ou não) trabalham em agências de publicidade envergando t-shirts de 10 contos, ténis de cor e marca e uma atitude de adolescente de desprezo pelo conhecimento, prazos, disciplina e trabalho. E por ser assim, uma pessoa já não pode usar um fato de riscas numa reunião sem ter de ouvir comentários do género “Então hoje vais ao banco?”. Já se me apresentar de ténis vistosos, t-shirt e casaco de cabedal ninguém leva a mal, pois é assim que um criativo é suposto parecer. Uma desgraça. Um criativo não parece, é.

Alice: A criatividade alimenta-se da polémica?

Pedro: A criatividade alimenta-se de informação. Há um livro, o único que explica como ter ideias que se chama “A Technique For Producing Ideas” e que foi escrito por James Webb Young. Lá se diz que ideias são novas combinações de velhas coisas (estou a citar de memória). É preciso saber coisas, é preciso informação sobre todas as coisas (as do marketing e as da vida) para as recombinar de um modo original. É a informação que alimenta a criatividade. Polémica, quando existe é, quanto muito, consequência da novidade, da estranheza e do desconforto que o que é novo às vezes provoca.

Alice: O que achas do facto dos anúncios de imprensa terem cada vez menos texto para ler?

Pedro: Desculpa lá ó Alice, mas isso é mais uma convenção do meio (dos criativos). Criou-se a ideia que pouco texto é sinónimo de mais criativo. Na verdade terão pouco texto os anúncios que têm pouco a dizer, ou que se destinam mais a provocar sensações e emoções e não tanto veicular informação, ou que se destinam a pessoas que têm dificuldade em ler. Se houver informação, então terão texto. Texto que se espera seja q.b. Estou para ver um anúncio de uma promoção ou de um concurso sem texto. Os anúncios sem texto são os que vão aos festivais e que aparecem nos anuários e em Cannes, porque na terra deles, têm texto. Basta abrir os jornais e revistas de qualquer parte do mundo para se ver que sim. O efeito negativo desta convenção é que os redactores deixam de escrever e os directores de arte deixam de se preocupar em arrumar o texto de modo gracioso e legível. O que leva a que os anúncios com texto sejam feios, que por sua vez leva a que os directores de arte e redactores não os queiram fazer. Enfim, uma tristeza.

Alice: A tua fama de teres mau feitio vem de longe. É só fama, ou também tens o proveito?

Pedro Bidarra: Já cá faltava.

fragmentos da entrevista dada na Primavera de 2004 /  fotografia de Steve Stoer  

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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6 respostas a Pedro Bidarra & Alice

  1. Muito bom e substantivo pensamento.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Olha que merda. As meninas Alice e João não tinham outro assunto? Houve entrevistas nessa revista bem mais interessantes. Que vergonha…

    • Maria João Freitas diz:

      Ora, ora, menino Pedro. É verdade que houve outras entrevistas igualmente interessantes (que serão publicadas nos próximos dias), mas esta tem um significado especial para a menina João, porque foste seu director criativo. E também para a menina Alice, pois foi a primeira entrevista feita por ela, precisamente para o primeiro número em papel.

  3. Tininha diz:

    A fazer jus à fama de mau feitio, menino Pedro?
    🙂

    PS. Aguardo pelo resto da entrevista 😉

    • Maria João Freitas diz:

      Tininha,
      Estas palavras já têm 10 anos. Entretanto, o feitio do Pedro ganhou outros adjectivos.

  4. Tininha diz:

    Conheço a entrevista toda. Ó se ganhou outros adjectivos 😛

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