Porn

Um texto postado há quase quatro anos num blogue supimpa chamado “É Tudo Gente Morta”. Sinto falta destes desabafos, e dessas discussões (contra mim falo):

A exploração comercial que se faz das mulheres — e dos homens, reduzidos a ventoínhas fálicas e lenhadores de sémen – na indústria pornográfica é lamentável (embora nunca se deva menosprezar o contributo dessa indústria para a integração altamente pedagógica de muitos jovens de várias gerações no mundo farfante da sexualidade).

 A análise dos limites do erotismo e da pornografia, e da arte e da pornografia, já me parece bem mais difícil e acidentada. Atrevo-me a uma sintética contribuição:

 Araki

a) Nos exemplos mais “radicais” da fotografia de Nobuyoshi Araki, há imagens que eu considero belas e, simultaneamente, pornográficas. Há quem as ache, apenas e só, belas.

O que traça as fronteiras do Pornográfico? A “crua” exposição da cópula? A figuração em grande plano da genitalia?

E qual de nós define essas fronteiras?

 Entre centenas de casos óbvios, ocorrem-me três. Todos eles com diferentes variáveis, por vezes – em intenção e efeito — contraditórias entre si:

a utilização de excertos de obras musicais clássicas – normalmente em adagietto — como pano de fundo de um somatório de imagens de fome, guerra, violência e morte, promovendo a actividade jornalística do canal televisivo, nacional ou estrangeiro, onde se inserem, enquanto alimentam e sublimam o respectivo fluxo, é, para mim, pornográfica.

  • o famoso descruzar de pernas de Sharon Stone em “Instinto Fatal” de Paul Verhoeven é, para mim, irremediavelmente pornográfico. Mais do que as longas-metragens da especialidade que se podem descarregar na net ou alugar para visionamento nas plataformas do cabo. Não pela exposição, em si mesma, do sexo feminino, mas pela intrínseca desonestidade do gesto, e da imagem que a regista. A – bela – vagina de Stone está ali para provocar uma reacção puramente voyeurista do espectador (fazendo crescer de forma exponencial a sua assiduidade nas bilheteiras) seja qual for o seu grau de integração – e o grau de justeza dessa integração – tanto no arco dramático da intriga como nos elementos definidores da personagem.

A conhecida imagem do miúdo judeu imerso no esterco humano, a olhar para a luz “sagrada” que passa pelo buraco da latrina em “A Lista de Schindler” do santo Spielberg é, para mim, pornográfica.

Trata-se de um gesto inegável de estetização da miséria humana, num contexto – o Holocausto – que merecia outro cuidado ético e diferente sentido de responsabilidade. No entanto, quem pode negar a força – à falta de melhor palavra – humanista da mensagem de compaixão tão central ao filme? E não será, à distância de década e meia, o filme de Spielberg directamente responsável pela tomada de consciência de uma nova geração (no mínimo, de espectadores/cidadãos norte-americanos) quantos aos horrores dos campos nazis, apesar dessa imagem pornográfica nele encerrada?

  • Os mais velhos autores deste blogue – no pun intended – recordar-se-ão certamente da cause célebre de Serge Daney a propósito de um certo travelling do “Kapo” de Gillo Pontecorvo – cujo contexto era o mesmo, os campos de concentração — considerado eticamente (logo, “esteticamente”) pornográfico pelo autor dos “Cahiers”.

 Quando escrevi que “a pornografia, no mais descarnado dos simulacros, É a realidade. Ou alguém duvida de que o melhor sexo é sempre pornográfico — SOBRETUDO quando assinado pela caução do amor?”, talvez me tenha explicado mal, já que utilizei a palavra “pornografia” num sentido diferente do que lhe tomei no início do texto.

Pretendia dizer que o sexo é um acto de uma irredutível crueza darwiniana, independentemente do contexto sentimental em que se insira ou de qualquer reflexão ontológica que sobre ele decidamos fazer. O sexo é, a priori, sempre — e felizmente, digo eu – “pornográfico”, antes dos juízos estéticos e culturais que o venham, ou não, a considerar erótico.

Ao fim de contas, somos todos animais na livre e infinita jaula da Natureza.

GorillasCopulating

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Porn

  1. Júlia diz:

    Assim de repente, sem querer desvirtuar o seu texto, mas já desvirtuando, quando penso em porno, vem me logo à ideia aquela cangalhada de apresentadores da tv, insistindo de trinta em trinta segundos no famoso «LIGUE JÁ O SETECENTOS… ESTAMOS EM CRISE, ESTE DINHEIRINHO PODE SER O SEU PÉ DE MEIA… BLÁ, BLÁ, BLÁ, SETECENTOS…»
    Não passa de um triste fornicanço para papar reformas, iludir velhotes e acamados, a que todos os dias aquela cambada se presta.

  2. Vânia Luz diz:

    Para mim pornografia é o óbvio.
    Claro que aquela cena da Sharon Stone remeteu a sexualidade, por causa daquele cruzado de pernas muitos voyeur assistiram ao filme

  3. nanovp diz:

    Pornográfico é obrigar ao desejo ao ponto de o tornar inútil.

  4. Trata-se de uma boa definição, Vânia. Obrigado pelo seu comentário. A inutilidade é o único luxo a que o desejo não se pode permitir, Bernard.

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