Quem é Johann Fust?

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É provável que não conheça Johann Fust. Eu não conhecia.

Dei com ele quando lia sobre Johannes Gutenberg, o inventor da prensa de tipos móveis, um dos criadores da modernidade, um dos poucos homens cujos génio, trabalho e obsessão fizeram avançar a humanidade. Foi graças a ele e à sua invenção que foram possíveis os livros como os conhecemos, o conhecimento partilhado, os jornais e, com eles, as nossas democracias.

E Johann Fust quem foi? Foi sócio de Gutenberg, foi o agiota que o levou à falência e lhe ficou com o negócio. Johann Fust era um homem de negócios, o homem do dinheiro no negócio da impressão.

Reza a história que Johann Fust emprestou dinheiro a Gutenberg para este desenvolver a sua prensa de tipos, logo em 1450, a um juro de 6%. Quando finalmente, em 1455, Gutenberg se preparava para finalizar a impressão da sua Bíblia de 42 linhas, faltavam apenas meia dúzia de exemplares, e tinha acordado pagar a dívida e os juros, Johann Fust processou Gutenberg por incumprimento. Com a ajuda do aprendiz, que testemunhou contra o mestre e depois casou-se com a filha de Fust, o agiota ganhou o processo ficando com a prensa e todas as Bíblias já impressas. Gutenberg, logo em 1455, ano oficial da invenção da impressão, viu-se despojado de todo o seu trabalho, das suas prensas, das suas Bíblias e na bancarrota.

Fust percebia de dinheiro, de tribunais, era bom comercial e nada sabia do negócio a não ser que era um bom negócio; tinha olho, portanto – qualidades que hoje são muito apreciadas num bom gestor e num bom administrador.

Fust cedo percebeu que aquele negócio era bom de mais para o seu inventor. Depois de sacar tudo a Gutenberg, de conluio com o aprendiz, Peter Schöffer, levou o negócio pela Europa fora e fez dele um negócio global. Gutenberg terá ficado a chupar no dedo, facto não habitualmente referido nos livros mas que se imagina.

Claro que por muito tempo Johann Fust foi referido como o inventor da impressão. Não lhe bastou o proveito (nunca basta), quis também a fama. Finalmente em Paris, onde vendia Bíblias sem dizer que eram impressas, para que ninguém soubesse do segredo, o povo desconfiou que havia ali mão do diabo – o homem debitava Bíblias com velocidade a mais – e Fust foi acusado de bruxaria. Curiosamente, anos mais tarde, a família mudou o apelido para Faust.

Não vou tirar nenhuma conclusão desta história que é sobre a relação entre a “arte” e o negócio, entre o fazer e o vender, entre o talento e o dinheiro. Há aqui muitas morais. Quem não teve um sócio que quis roubar uma ideia ou um negócio? Quem não conhece inventores, criadores e “artistas” absolutamente ineptos para fazer crescer o que criam?

Dei com esta história, que está cheia de imprecisões, ontem, quando pesquisava sobre a imprensa e o jornalismo para escrever sobre o despedimento de 160 pessoas no grupo do DN. Noutros tempos, mais remotos, alguém no jornal reveria os factos e as referências históricas. Alguém falaria com alguém de História para confirmar e, no fim, sairia uma coluna exacta, revista e com factos confirmados. Mas confirmar é mais caro do que não confirmar e por isso nada disto foi confirmado. Acredite se quiser. Afinal, está na internet, como as notícias todas.

Publicado
13/06/2014 | 01:16 | Dinheiro Vivo

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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3 respostas a Quem é Johann Fust?

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Edificante, meu caro Pedro.

  2. riVta diz:

    Fust, Faust foi-se!
    😀

  3. nanovp diz:

    Quem quer , afinal, saber ? Porque saber custa dinheiro…

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