Susana e os anciãos

 

 

A 1636 painting by Rembrandt, now in the Gemaldegalerie in Berlin.

A 1636 painting by Rembrandt, now in the Gemaldegalerie in Berlin.

A história de Susana vem no capítulo 13 do Livro de Daniel. Os protestantes consideram-na apócrifa porque não aparece no Tanach Judaico nem é mencionada na primeira literatura judaica. Mas está impressa no Livro dos cristãos e dos ortodoxos do leste e fez parte do original Septuaginta do séc. II a.C., a primeira tradução para grego da Bíblia hebraica. Isto para dizer que a legitimidade e autenticidade da história não tem sido pacífica. Sobre o assunto cito o maior e mais democrático repositório de sabedoria do universo como o conhecemos, a Wikipédia:

“O texto grego sobreviveu em duas versões. O do Septuaginta aparece apenas no Códice Chigi. A versão de Teodócio é a que aparece nas bíblias católicas. Ele foi considerada como parte da literatura de Daniel e colocada no início do seu livro nos manuscritos do Antigo Testamento. Jerónimo, por sua vez, colocou-a no final de Daniel, enquanto traduzia a Vulgata, com uma nota indicando que ela não existia na Bíblia hebraica e a considerava uma fábula. Em sua introdução, ele afirma que o texto é uma adição apócrifa justamente por não ter sido escrita em hebraico – como o livro de Daniel original – e sim em grego.
Sexto Júlio Africano não considerava a história como canónica, segundo Eusébio de Cesareia, e escreveu a Orígenes sobre o assunto. Orígenes escreveu-lhe de volta uma longa defesa da história, afirmando que:
“— Respondendo a isto, você provavelmente dirá: “Por que então a história não está no Daniel deles [os judeus] se, como você diz, os seus sábios legaram pela tradição histórias desta natureza?”. A resposta é que eles esconderam como puderam este conhecimento das pessoas, pois muitas de suas passagens que continham escândalos contra os anciãos, reis e juízes, alguns deles sendo preservados em escritos apócrifos – escreveu Orígenes na carta a Africanos.”

E qual é o interesse de todo este relambório para a tarefa que vos venho propor, e que mais não é do que a de escrever uma curta ficção inspirada no quadro “Susana e os Anciãos” de Rembrandt?
Interesse, interesse não sei se terá, mas função tem: a de vos inspirar e estimular com fait divers. Quem sabe se esta informação suplementar não dará pano para mangas ficcionais.
Mas vamos à história de Susana e dos Anciãos, de que aqui deixarei, um resumo de resumos muito pessoal. Os amigos poderão, e deverão, abrir o livro de Daniel e ler o capitulo 13.

A história é um policial que mete sexo, abuso de poder, inocentes falsamente condenados, interrogatórios cruzados onde as testemunhas se contradizem, desdizem e se auto-acusam, com Daniel no papel de Columbo. No fim os maus são condenados; só falta Daniel ler-lhes os direitos como acontece no Law & Order da FOX. É também uma história que nos lembra a condição da mulher, ou a falta dela, nestes nossos velhos monoteísmos.

Susana e os Anciãos, estudo

Susana era a bela e jovem mulher do rico e respeitado Joaquim, um dos mais reputados israelitas da sua terra. Joaquim era proprietário de um frondoso jardim que os seus concidadãos frequentavam com prazer. Entre eles havia dois velhos juízes, chefes de família e conselheiros do povo, aos quais se aplicava a palavra do Senhor “A injustiça brotou da Babilónia, vinda de velhos juízes que passam por guias do povo”; uma verdade cíclica como os tempos.
Era no jardim que os velhos juízes recebiam as pessoas que os procuravam para resolver os seus assuntos. Mas, para a história, o que interessa é que os dois juízes eram dois velhos e libidinosos voyeurs que cobiçavam a bela Susana, ficando muitas vezes escondidos no jardim, depois de fechado ao público, a fazer não se sabe o quê atrás dos arbustos com a mão direita, no caso de serem destros, senão era com a canhota.
Num dia de calor, Susana, pensando que estava sozinha no jardim, decidiu tomar um banho nua e os velhos decidiram atacá-la dizendo-lhe que: ou ela se deixava penetrar pelos dois ou eles a acusariam de ter sido apanhada em flagrante adultério com um rapaz no jardim. Dessa acusação resultaria, inevitavelmente, a condenação à morte. Susana preferiu morrer.
Assim foi. Só que o Senhor, o Grande Procurador, mandou o seu Columbo, Daniel, que finalmente investiga tudo e acaba por expor os velhos javardos. Tudo acaba bem.

A partir do renascimento “Susana e os Anciãos” passou a ser assunto de artistas e aparecer em dezenas de telas Era tempo de pintar nus e esta era uma das poucas história do Livro onde figurava uma mulher nua e sexo. Talvez cansados de pintar Vénus, muitos atiraram-se à Susana que passou a ser uma espécie de standard.
O meu quadro preferido é o de Rembrandt. Nele tudo é escuro, pardo e nojento como a história. Os velhos estão camuflados na natureza e confundem-se com ela. Atacam do fundo castanho da cor das raízes e dos ramos, como se fosse a própria natureza a atacar. Se calhar é. Os dois libidinosos representantes do poder parecem nascer e crescer naturalmente, como uma obscura, impiedosa e implacável força da natureza.
Já a bela e iluminada Susana tem um pé no degrau do tanque e outro já na água. O tanque é uma construção do homem. Uma tentativa de trazer para casa, e nela reter, a água transparente, limpa, virtuosa. Mas é uma construção artificial como a virtude. A natureza está lá, no escuro, à espreita, pronta a atacar. Mesmo sabendo que no fim da história os velhos foram desmascarados e condenados, sabemos também que a natureza (a nossa que é a mesma dos bichos) acabará sempre por triunfar. Contra ela nada podem os frágeis e belos constructos de virtude. A natureza dura mais. É mais natural.
Ou então acredita-se na justiça divina. Outro constructo anti-natural. Mas isso são outras conversas. Espero que este quadro, esta história e este relambório vos inspire. Boa escrita.

Susana e os Anciãos, estudo

P.S. Os triste amigos, em querendo, poderão escolher outra tela do mesmo tema para ilustrar a vossa curta ficção. Há-as às dezenas.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

3 respostas a Susana e os anciãos

  1. Emilio Romero diz:

    Excelentes os comentarios sobre a historia de dona Susana. Sobretudo coloca o acento na força da libido nos anciões, o que hoje é amplamente confirmado. O carater infractor da libido ja está presente na hist´roia de Eva e a Serpente e outras historias mias (como é caso do Rey Davi que mando matar o mariso de Jazabel para ficar com ela). Estes aspectos transgresores sa Biblia a torna un magnífico livro sobre a condição humana.

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado Emílio. Também gosto muito do Livro. Estão lá as histórias todas do mundo

  2. Stan diz:

    Legal essa passagem de Suzana no libro de Daniel. Muito boa a historia. Mas de fato não tem nada a ver com israel!

Os comentários estão fechados.