Tristes cães

para a Eugénia, para a Rita & para todas as pessoas-cão do mundo

Screen shot 2014-06-02 at 1.34.20 PMParece mesmo que alguém baixou o volume do som das fotografias. De outro modo, como explicar o silêncio das imagens? Não deveríamos estar a ouvir latidos, choros, grunhidos e outros sons caninos? Aliás, como explicar as imagens destes cães de marca em carros de raça (ou será ao contrário?).

Screen shot 2014-06-02 at 1.34.52 PMComecemos pelo fotógrafo. Martin Usborne estudou arquitectura, psicologia e animação 3-D antes de se tornar fotógrafo. Em criança, com cerca de 4 anos, foi deixado à porta de um supermercado fechado no carro durante alguns minutos e pôs-se a imaginar o que aconteceria se os seus pais não voltassem e ele ficasse ali, sozinho para sempre. Talvez o pequeno Martin se tenha sentido como os cães quando são deixados pelos donos fechados no carro, vulneráveis e sem voz.

Screen shot 2014-06-04 at 7.49.41 PMSe juntarmos a este episódio marcante a sua paixão por cães, o sentido de The Silence of Dogs in Cars começa a revelar-se. A série, com mais de 40 fotografias, começou como um documentário, mas depressa passou a fotografias encenadas, quase cinematográficas. Tudo foi cuidadosamente planeado e cada cão aparece num modelo de carro adequado às suas características físicas e personalidade, em composições gráficas expressivas e comoventes.

Screen shot 2014-06-04 at 7.36.25 PMTodos os cães, temporariamente abandonados e fechados em carros, em posições e contextos humanos, parecem imitar os donos. A divisão artificial que o vidro das janelas do carro introduz reforça a atmosfera fechada e claustrofóbica e a solidão sem voz dos modelos caninos. Eles podem ver o que se passa lá fora, mas não podem fazer nada para sair dali. A própria lente da máquina fotográfica é outro vidro que existe entre quem vê e quem é visto. Estes cães estão separados da realidade por um vidro duplo.

Screen shot 2014-06-04 at 7.36.48 PMForam congelados em pose num momento de tensão em que vivem sentimentos comuns a animais e humanos (que a maior parte do tempo se esquecem de que também são animais), como o medo do desconhecido e a sensação de abandono. As reacções subtis de Flo, Bolt, Buzz, Stan, Peggy, etc (o nome de cada um deles é a legenda das diferentes fotografias) variam da tristeza à raiva, da rejeição à melancolia, do desanimo à solidão. Tudo é transmitido em silêncio, graças às impressionantes expressões dos modelos na sua muda vulnerabilidade.

Screen shot 2014-06-02 at 1.35.18 PMNão se sabe ao certo de que truques se serviu o fotógrafo durante as sessões – ele utilizou entre outras coisas queijo, mortadela, bolas de brincar e a música de Sinead O’Connor Nothing Compares 2 U (ninguém se comparará a quem? ao dono? – mas os cães são modelos que não mentem. Reparem bem nas suas expressões ansiosas e atentas. Não apetece mesmo abrir de imediato a porta do carro, fazer-lhes festas e deixá-los sair?

Screen shot 2014-06-04 at 7.37.00 PMA série não é apenas uma metáfora para a forma como muitas vezes os humanos tratam os animais, a começar pelo facto de os submeterem à sua vontade e modo de vida. Talvez as fotografias queiram mostrar mais: o medo da solidão que nós, humanos, à semelhança dos cães, animais dependentes, sentimos e que gostaríamos de manter fechado algures, longe dos olhos do mundo.

nota: Moose e Bug, os dois Schnauzers miniatura que vivem com o fotógrafo em Londres, não serviram de modelos. Provavelmente não saberiam fingir-se abandonados num carro, tendo o dono por perto com uma máquina fotográfica na mão.

last dog

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

17 respostas a Tristes cães

  1. Tininha diz:

    Será que só os cães são seres sencientes?

    • Maria João Freitas diz:

      Tininha, não me parece. Sei por experiência própria e diariamente comprovada que os gatos não lhes ficam atrás…

  2. Júlia diz:

    Continuo a ficar com um nó na garganta quando vejo estas fotos. Revê-las, fez-me lembrar as fotografias de Tou Chih-kang
    http://www.cbsnews.com/pictures/shelter-dogs-before-their-final-moments/

    • Maria João Freitas diz:

      Júlia, obrigada pelo comentário (mas confesso que não tive coragem de espreitar esses momentos finais. ainda lá fui, o site não carregou logo e achei cobardemente que era um sinal para não insistir)

      • Júlia diz:

        Entendo. Vi-o como uma chamada de atenção do egoísmo humano (compramos animais, deixamo-los acasalar, para tantas vezes os abandonarmos – que depois são abatidos). As fotos são de uma franqueza incrível, mas duras sim. Para mim, que sou uma apaixonada por animais, foi difícil ver o trabalho dele, depois de saber do que se tratava.)

  3. Maria João,

    obrigada. Gostei muito de ser uma pessoa-cão.

    • Maria João Freitas diz:

      Eugénia,
      Não sei o que é ser pessoa-cão (sou pessoa-gato), mas deve ser muito bom.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Texto e imagens magníficas!

  5. Paula Santos diz:

    Fabuloso!! E não é que me dá uma real gana de desatar a morder em gente?

    • Maria João Freitas diz:

      Paula, isso faz de si uma humana com raiva, o que se entende. E quem sabe, seria notícia nos jornais…

  6. “Parece mesmo que alguém bai­xou o volume do som das foto­gra­fias.” Grande frase, Maria João.

    • Maria João Freitas diz:

      Ivone,
      Grandes são as fotografias que inspiram por vezes certas frases, mas muito obrigada.

  7. Joao, que bonito texto. Alarga muito as fotos. E gostei de descobrir assim o medo da solidão que se quereria ver fechado e ignorado.

Os comentários estão fechados.