Tsog tsuam

p3-alpEm resposta ao comentário da Maria (ou do Sérgio Godinho) ao Sem-sonhos:

Há casos bem estranhos na literatura médica. Nos anos 80 nos Estados Unidos houve uma epidemia de mortes nocturnas durante a qual 116 homens, todos saudáveis, com uma idade média de 33 anos, morreram durante o sono. Eram todos Hmong do Laos. Não partilhavam o mesmo espaço físico, mas todos tinham emigrado do mesmo local e partilhavam os mesmos laços culturais.
Na época, os médicos, incapazes de encontrar uma explicação, chamaram ao fenómeno SUNDS, Sudden Unexpected Nocturnal Death Syndrome.

Vinte cinco anos depois, Shelley Adler, professora na Universidade de São Francisco, no seu trabalho Sleep Paralysis: Night-mares, Nocebos, and the Mind-Body Connection, e depois de extensa investigação, chegou à conclusão que os Hmong foram mortos pelas suas crenças no mundo espiritual.
“Nocturnal pressing spirit attacks” foi o conceito que ela investigou e que a literatura científica tende a chamar de paralisia do sono, uma condição que em muitas culturas está relacionada com o terror ou o mal nocturno: na Indonésia chama-se digeunton, (pressionado) na China bei gui ya (agarrado por um fantasma), na Hungria boszorkanu-nyomas (o abraço das bruxas), na Terra Nova Hag Ridden (literalmente montado pela bruxa velha) e até no nightmare, que vem the nachtmerrie, o termo mare vem do alemão, mahr e do antigo Nórdico mara, um ser feminino sobrenatural que ” se deita no peito das pessoas sufocando-as. Tudo isto se passa durante a paralisia do sono:
During sleep paralysis, a person experiences an “out of sequence” REM state. In REM sleep, we dream and our minds shut off the physical control of the body; we’re supposed to be temporarily paralyzed. But we are not supposed to be conscious in REM sleep. Yet that is precisely what happens during sleep paralysis: It is a mix of brain states that are normally separate.”

Muitos de nós já fomos visitados pela Old Hag e sentimos terror, mas não morremos, mesmo que tenhamos acordado com arritmias cardíacas e cheios de adrenalina. Mas os Hmong acreditavam que havia um espírito malévolo, tsog tsuam, que os visitava, os sufocava e paralisava quando eles não praticavam os rituais da sua fé; o que aconteceu quando foram desenraizados do Laos e espalhados por 53 cidades dos Estados Unidos, longe dos xamanes que poderiam ajudá-los e da comunidade onde poderiam levar a cabo os seus rituais de adoração. E por isso, porque estavam em falta para com as suas crenças e divindades, acreditavam que estavam em risco de ser visitados pelo tsog tsuam, o que, na verdade, veio a acontecer.
Adler afirma que os homens Hmongs, desenraizados e confrontados por terrores nocturnos que acreditavam capazes de matar (uma crença enraizada na cultura Hmong) morriam mesmo de SUNDS.
Tratou-se de uma espécie de efeito nocebo (o antónimo de placebo): a crença que algo pode fazer mal, pode mesmo fazer mal.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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6 respostas a Tsog tsuam

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É por isso que faço sempre as orações da noite.

    • Pedro Bidarra diz:

      De joelhos na cama, virado pra cruz pendurada na parede sobre a cabeceira. Que quadro lindo, Manuel

  2. O que nos salva é que a crença de algo pode fazer bem, também faz: há um estudo giro – a ver se encontro o malvado: pessoas que julgavam ter tido uma intervenção cirúrgica no joelho, artrose, creio, apresentaram melhoras como os intervencionados de facto.

    • Pedro Bidarra diz:

      Isso é o placebo. O que eu espero pelo dia em que se consigam fazer essas intervenções. Curar infecões e lesões só com sugestão

  3. Maria diz:

    O estudo, mais um, vem comprovar o poder das nossas convicções naquilo que somos. Entre tantos ocorrem-me o do efeito pigmaleão ou do vidro partido,
    Obrigada, meu querido

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