Um não da boca para fora

 

Já não me lembrava, mas hoje passei pela funerária e a abrir um caixão encontrei este velha prosa. Cá vai.

non

 Queres…
– Não.
– Mas eu ainda não disse o que…
– Não.
– Deixa-me ao menos…
– Não! Não e não. Já disse. E seja o que for, é não!

Desiludam-se os que pensam que, noutra língua – seja grego ou alemão -, este diálogo jamais poderia ter lugar. Não há trovão de língua no mundo, uma linguazinha, um dialecto, uma sumida e surrada soma de sons sistematizados, que não se gabe, orgulhe, vanglorie da sua inequívoca capacidade de negar.

Mas assim ladrada, ão, ão, ão, só mesmo em português…”, sugerem-me, esperançados, os mais Tristes estetas deste “Escrever Não, É Triste“. Não sou especialista, mas garantem-me os que têm a filologia under the skin que NÃO é bem assim. Para negar, nenhuma língua tem a vergonha desse Pedro que três vezes negou antes que o galo cantasse. Para negar, qualquer língua, toda a língua, abre bem a boca, redonda, sonora, evitando que restem dúvidas entre locutor e auditor: NÃOOuviste? Não. Não é não. Não, não é sim, é NÃO.

Um NÃO que seja tomado pelo seu contrário é o princípio da macacada e o fim da picada. Ser plena e categoricamente negativo é o grito de Ipiranga de qualquer língua. Há cambiantes, nuances, mariquices e outras grandessíssimas chatices quando se trata (só) de afirmar. Entendidos, subentendidos, mal-entendidos são a selva afrodisíaca da afirmação.

Mas quando se quer negar é NÃO, ponto final, uma recusa, um arraso na tusa. Os franceses, insuportáveis cartesianos, para evitar falhas no sistema, ao non, que como nós herdaram do latim, acrescentaram uma espécie de apostas múltiplas na linha do euromilhões, desdobrando o irrefutável monossílabo num ne qualquer coisa pas. “Querias, não querias, filho? Pois bem, ouves o ne e já sabes que estás a ir de patins, mas quando te der com o pas é como se um tijolo te tivesse malhado na cabecinha – dói, não dói?!

As línguas evoluem. Para afirmar arranjam-se circunlóquios, solilóquios, e outras equívocas formas que matizem o dito e dêem uso à hermenêutica. Para negar, todas as línguas se juntam no mais obsceno dos partouze para reforçar o NÃO, NON, NE qualquer coisa PAS.

Vigoroso e audível: NEIN! NOT AT ALL! ÜBERHAUPT NICHT. NON…MICA. Melhor só o chinês BÌNGBÚ que não só é não, como é não e um veemente “não, contrariamente ao que Vossa Excelência na sua retorcida mente pensa, e limpe-se lá a esta toalha que não o quero envergonhar.

Porque, sim, há línguas que levam o negacionismo ao perfeccionismo. Em português, por mais que tente, não arranco um verbo que seja o contrário de “ser”. Tenho de recorrer à muleta, ao redondinho advérbio “não” para dizer o “não-ser”. Húngaros, coreanos, árabes, indonésios e turcos – e deve haver mais – ao gritado NÃO  somam a invenção de verbos originais que são a negação de verbos como ser e haver. Em Istambul deģil é “não-ser”, enquanto dir é o shakespeareano “to be”. Um luxo asiático.

Estando perfeitamente a par das discussões que, neste cemitério chamado Portugal, temos tido sobre passado, presente e futuro e a respectiva ontologia e extensão, há línguas que, prevenidas, se armaram de verdadeiros varapaus negativos, negacionistas ou o lá o que seja, distinguindo entre o não ao passado e o não ao futuro. Lan é uma partícula de negação que os árabes reservam para o futuro, do mesmo modo que os chineses negam o passado com méi e o futuro-presente com .

Acho mesmo muito bem: o presente, o futuro? Bú.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Um não da boca para fora

  1. Os únicos que se lixaram com o ditongo foram os cães, que não têm tradução em língua alguma, até Barroso deu a volta chamando-se Burroso, mas os cães, quem traduz o que eles dizem?.

    Um sim da boca para dentro:

  2. ão, ão não precisa de tradução

  3. Belo texto. E fun! Fartei-me de gostar.

  4. Sandra Barata Belo diz:

    Meu Muitíssimo Mestre Manel

  5. nanovp diz:

    Não digo nada…

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