Visão, tenha duas: Ilhas

visao hoje
Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, na ilha deserta,
O Manuel S. Fonseca e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ele escre­veu o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Expe­ri­men­tem ler.

ILHAS

No outro dia disseram-me o que se costuma dizer: nenhum homem é uma ilha. Não tenho essa certeza. Acabados de nascer somos uma península ligada ao continente mãe. Mas depois de cortado o cordão, não somos uma pequenina ilha em regime de protectorado? E logo a seguir não vamos reconhecendo o nosso arquipélago? E não chega aquela hora em que entramos na vida para inventar uma baía toda particular? Somos uma ilha, sim, com todos os acidentes e alegrias da geografia: uma depressão, se estamos abaixo do nível do mar. E um canhão se entre montanhas que nos cortam o ar. E um vulcão em puríssima erupção quem é que se atreve a dizer que não é, nunca foi, jamais será na ilha do eu? Eu tenho o meu. Uma restinga tão estreita, a um palmo de areia, a um passo na areia, à distância da mão na mão, quem é que não quer ser?

É uma viagem do caraças um dia na ilha do mundo, todos os dias. E a Terra é só uma ilha no grande mar sideral, não é?

No outro dia perguntaram-me o que costumam perguntar: se só pudesse levar uma coisa para uma ilha deserta, o que seria? Um barco, pois claro, se é uma nave espacial…

No outro dia preenchi um questionário para saber qual era o meu ideal de ilha para férias: tanto quadradinho cheio de cruzes inúteis, sou uma inconclusão insular. Se me tivessem perguntado teria respondido: o meu tipo de ilha és tu, para viver ou passear. E para escrever há todo o mar.

Ilhas nós todos na união das águas.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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4 respostas a Visão, tenha duas: Ilhas

  1. Já viu que fez da água uma costureira, a cerzir o mundo para ligar as ilhas?

  2. riVta diz:

    é um bocadinho irritante gostar muitas vezes do que a Eugénia escreve mas «ter o mar para escrever» é uma coisa linda de se dizer.

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