Visão, tenha duas: o homem de cabelos brancos, o rapaz de calções

VisaõFRonaldo

Do canto superior direito da capa da Visão, Freitas do Amaral olha para Cristiano Ronaldo. “Nasci, como tu, a cheirar o mar,” pensa. “Que diferença há, afinal, entre a Póvoa de Varzim e Santo António do Funchal? Não há nada que tenhas feito que me seja estranho”, sussurra-lhe.

O homem que está no canto direito da revista Visão, num pequenino selo fotográfico, um cromo quase, olha para baixo, para o perfeito atleta com a camisola das quinas, como quem olha para o colosso de Rodes. E pensa que a radiosa máquina de músculos, esse corpo enxuto, rápido e eficaz, é que sabe pouco. “Sabes lá o que era nesses anos de chumbo do professor Salazar (andavas tu a saltar de galáctica nuvem para nuvem), licenciar-se um tipo na vetusta Faculdade de Direito em Ciências Político-Económicas e três anos depois, com os mais inocentes 26 anos, arrancar o doutoramento em Ciências Político-Jurídicas?!”

O homem de cabelos brancos, rosto maciço, um travo amargo e baixo no olhar, sabe que fez o que era certo e era preciso ser feito e, no entanto, há um língua de silêncio que o invade, um gomo de ressentimento que o aniquila.

“Talvez não acredites – e já é uma nocturna maneira deste homem fechado num pequenino quadro do canto superior direito de uma revista, falar consigo mesmo –, mas era bem capaz de trocar o meu reino, por um dos teus pequenos saltos de cavalo. Os livros que li e os livros que escrevi, as minhas batalhas constitucionais, as vitórias e as derrotas políticas, a Ordem Militar de Sant’iago de Espada, a Ordem da Estrela Branca da Estónia, a pompa e circunstância dos meus palácios, o calcinado silêncio dos meus banquetes, a rede maligna dos compromissos, deixava tudo, de tudo abdicaria, pela alegria física de um golo, pela explosão fulminante de um sprint, pela gloriosa irreverência de um dos teus slaloms.

“Sei tudo sobre o conceito e natureza do recurso hierárquico (que tu olimpicamente ignoras), conheço Maquiavel e Erasmo, as linhas essenciais da reforma do contencioso administrativo e só vem magoar-me a cabeça o verso do poeta: “Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.” O que eu queria, esse meu perdido Rosebud da Póvoa de Varzim, era um golo, a des-ideológica multidão num estádio, o mergulho na relva, o embrulhado e sincero abraço dos outros jogadores, a cabeça leve, o coração puro.”

Da pequena janela, canto superior direito da capa de uma revista, o homem de cabelos brancos confessa a um rapaz enxuto: “Tive tanto no meu cérebro, tão pouco nos meus pulmões.”

Já sabem que todas as sema­nas, a Eugé­nia e eu nos pomos a olhar, Tris­tes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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2 respostas a Visão, tenha duas: o homem de cabelos brancos, o rapaz de calções

  1. Tanto queremos o bom pensamento, mas é o corpo que nos dá o motor da alegria, a de salto de cavalinho ou a de amor.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Há muitas alegrias, é claro, mas essa alegria de menino, da finta, da corrida, do físico todo contente é consolo para uma vida.

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