Visão tenha duas: o que é um pai?

A beleza de um rosto de mulher, a esculpida beleza de uma actriz, está hoje a encher a capa da Visão. Essa mulher não é, ao contrário do que normal e logicamente acontece, filha do seu pai. Há um homem que recusa a paternidade que ela lhe atribui ou reclama. O que me obriga a perguntar, o que é um pai?

Um pai que se recusa a ser pai pode ainda ser um pai? Uma filha (ou um filho) aceita os seus pais, ainda que não possa ter a certeza de quem eles sejam. Esteve, por força das circunstâncias e de uma inapelável lei da causalidade, ausente desse momento em que um homem e uma mulher a conceberam. Então, como é que uma filha pode saber quem é um pai?

Um pai é essa presença que um filho – ou, no caso vertente, uma filha – reconhece por lhe ter cantado ao ouvido na primeira noite de choro e cólicas. Um pai é essa mão macia e firme que a segurou no banho enquanto a mãe lhe passava a esponja. Um pai é o tipo atrapalhadíssimo – a mãe a gritar da cozinha, tens de ser tu a mudar-lhe a fralda que eu estou a fritar batatas – que pela primeira vez, começando com toalhetes perfumados, dois dedos já sujos (ó meu Deus como aquilo se mete debaixo das unhas!), o lençol branquinho da cama em, que se lixe, último recurso, lhe limpou o rabo, soltando ahrrs e outras exclamações guturais de profundo horror, doido por ir afogar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de caracóis da esquina. Um pai é o ignorante em pânico que entra pelas urgências da Estefânia, a pôr a laringite estridulosa, com que ela dá show de bola, à frente de traumatismos e fosse lá o que o raio de tantos aflitos e febris filhos dos outros tivessem.

Uma filha sabe que tem um pai quando ele lhe fala interminável, profusa e veementemente de coisas horríveis de que ela não quer saber nem em sonhos: vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola, foras-de-jogo, clamorosos erros de arbitragem. E esse pai sabe que é um pai porque a ouve dizer, entre o desabafo, um começo de feminina fúria, um ponto de exclamação que é quase um juancarlista “porque no te callas”: “PAI!” O tipo que a seguir se cala, é, garanto-vos, um pai. E é um pai o tipo que já não sabe se há-de rir ou se há-de chorar, quando lhe oferece uma Barbie, e essa filha que já sabe muito bem, com um raio de um imenso carinho escondido, que ele é pai, lhe diz: “É a terceira Barbie africana que me dás.”

Um pai é um tipo que não tem jeito nenhum, factor essencial para uma filha reconhecer um pai. Pai é o terceiro excluído, o que ouve uma mulher dizer, “agora, vai lá para dentro que a tua filha e eu precisamos de conversar as duas.”

E apesar das incongruências, da canhestrice, do ostracismo de género a que é votado, um tipo sabe que é pai. Esse pequenino amor condescendente de um beijo na testa, de uma festinha mais à bruta que lhe faz cair os óculos, é uma forma feminino-filial de dizer: “Não és mau de todo, coitadinho, és meu pai.” É um amor do tamanho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.

É preciso ser-se um grande aborto jurídico para se recusar um amor de arroz-doce.

Meia-noite e um minuto e cá estamos,
a Eugé­nia e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da revista Visão. Ela escreveu o que lhe veio à cabeça. Eu também.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Visão tenha duas: o que é um pai?

  1. Nesse amor do tama­nho de um bago de arroz cabe o nosso herói. Vai à frente de nós para nos proteger. E é aquele com quem todos os homens têm de se medir. E essa é que é a verdade.

  2. José Amaral diz:

    Emito o meu comentário pela primeira vez neste espaço do Manuel Fonseca e começo por referir que, na minha modesta opinião, “esvrever não é triste”; é relaxante! Logo, não me sinto triste, mas feliz! Sou pai e não aceito que ninguém me considere um mero bago de arroz; nem mesmo de arroz-doce (e sou guloso!). Os ingleses têm uma máxima que reza mais ou menos o seguinte: “Anyone can be a Father but it takes something special to be a Daddy”. É esta última referência que pretendo e acho que consigo que me considerem: alguém muito especial para os meus Filhos!

  3. Existem muitas Marianas por este mundo fora, eu podia ser uma Mariana, apesar de ser homem, no entanto ao contrário da Mariana, eu não sou de “pai” incógnito, simplesmente fui abandonado por ele no dia em que nasci, nunca o vi, apesar de ele ter ido ao meu baptizado (não a convite meu), mas como é natural não me recordo, e de ter como ultimo nome o nome dele. Já por diversas vezes pensei, devo retirar o nome do meu nome?, não quero dar continuidade a um nome que nada me diz, de uma pessoa que é isso que essa pessoa é para mim, nada me diz. Não esteve presente quando comecei a caminhar, quando comecei a andar de bicicleta, quando comecei por desfazer a barba, quando fui para o serviço militar, quando me casei, quando fiz de tudo pela primeira vez, tive uma mãe, tive tias e tios, tive avós e avôs, mas nunca um pai! Não creio que essa ausência tenha interferido na minha personalidade, mas às vezes dou comigo a pensar, que seria diferente, que apoio teria, que mudaria na minha vida. Sei que fui criado com amor, carinho e palmadas (também foram necessárias) mas fui criado, e hoje cá estou, à espera de dar aos meus o que nunca me foi dado a mim, amor de pai.

  4. nanovp diz:

    Um pai é um pai é um pai…não há como recusá-lo….

  5. Pedro Luiz de Castro diz:

    Pai é padre em espanhol. Em português pode ser o padre/pai que abençoa, ouve a confissão, e orienta o rebanho familiar….

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