A visita do meu amigo Varguitas

O meu amigo Varguitas e a tia Julia

O meu amigo Varguitas e a tia Julia

Conheci o Varguitas ainda adolescente. E rapidamente deixei de o ser com aquelas fantasias com que ele me encheu a cabeça. Primeiro, a obsessão pela tia bem mais velha do que eu. É certo que só era tia por afinidade mas, em todo o caso, aquilo foi suficiente para me deixar mal aos olhos da família e da sociedade. Depois, quando fui cumprir o serviço militar, o escândalo das visitas das meninas ao regimento, que me tornou indigno de continuar a usar a farda. E, a partir daí, foi sempre a subir na escala da dissolução de costumes e a descer na da consideração social. De aprendiz de mulheres experimentadas passei a predador de ingénuas mas surpreendentemente fogosas donzelas. Conheci mundo. Graças ao Varguitas, conheci personagens fascinantes. Algumas infames sim, mas sempre fascinantes ao ponto de me inspirar a simpatia que só se reconhece aos sedutores. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma vontade de conspirar. De conspirar contra o poder, de fazer revoluções, de espalhar a anarquia. Perseguido e incapaz de derrubar preconceitos, decidi então fugir do mundo, refugiando-me numa ilha perdida no Pacífico para pintar jovens, muito jovens libidos femininas. Voltei um dia sob identidade falsa para não me deixar apanhar nas malhas das sempre tão vigilantes convenções sociais, eu que, desde que conhecera o Varguitas, me tornara um espírito liberto de quaisquer constrangimentos. Mas acabei mesmo preso sim, mas nas garras de – quem havia de ser – uma mulher. Uma menina má. Uma mulher que me consumiu quase até à morte, deixando-me sem fôlego para manter a minha dignidade de pé. Provavelmente, pensava eu, era esse o castigo por ter seguido Varguitas tantos anos. Acabava vítima dos jogos perversos que cultivara no passado. Os tais que Varguitas me ensinara a jogar, ao mesmo tempo que me transmitira – julgava eu – o dom da invencibilidade. Mas fora derrotado. Julgava eu que as forças me faltavam quando, em boa hora, o Varguitas me apresentou homens da estirpe do Roger e do Felicito, tão inquebrantáveis na adversidade, tão determinados na luta contra as injustiças do mundo, que, ao seu lado, rapidamente me pareceram ridículas as minhas pequenas contrariedades.

Chegou, finalmente, o dia pelo qual tanto ansiava. O Varguitas veio visitar-me. Ah, que vontade de fazer regressar o velho mundo que julgava perdido. Que venham de novo as tias e as madrastas encher-me de fantasias. Que o Pantaleão – ah Pantaleão! – mande vir as meninas. Meninas boas, más, virgens ou matronas. Que me ponham nas mãos aqueles cadernos que fazem subir a temperatura. E que me tragam uma horda de combatentes dispostos a fazer uma boa revolução para tirar os infames do poder. Que venha o Varguitas para por ordem nisto tudo. Ordem? Qual ordem, o que se quer é desordem. O que se quer é a desordem dos corpos, das emoções, das rupturas que só o meu amigo Varguitas é capaz. Que emoção, o Varguitas vem visitar-me! Que o mundo inteiro se junte a mim e ao Varguitas nas melhores férias da minha vida, as férias com que o Varguitas decidiu honrar a nossa terrinha.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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9 respostas a A visita do meu amigo Varguitas

  1. Júlia diz:

    «Escrevo. Escrevo que escrevo. Mentalmente vejo-me a escrever que escrevo e também posso ver-me a ver que escrevo. Recordo-me já escrevendo e também vendo-me que escrevia. E vejo-me recordando que me vejo a escrever e recordo-me vendo-me a recordar que escrevia e escrevo vendo-me a escrever que recordo ter-me visto a escrever que me via a escrever que recordava ter-me visto a escrever que escrevia e que escrevia que escrevo que escrevia. Também posso imaginar-me escrevendo que já tinha escrito que me imaginaria escrevendo que tinha escrito que me imaginava escrevendo que me vejo a escrever que escrevo.»

  2. Cara Júlia, não reconheço na sua citação o estilo do Varguitas. Pode por favor esclarecer-me quanto à autoria da dita?

    • Júlia diz:

      Tem razão, Diogo, desculpe.

      Salvador Elizondo, El Grafógrafo. Na minh’A Tia Julia, vem logo após a dedicatória de Llosa a Julia Urquidi Illanes.

  3. Como me posso eu ter esquecido da dedicatória do Tia Julia? Obrigado, Júlia (que nome inspirador), a falha foi minha.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    O seu fantástico “Varguitas” esteve para o Diogo como a “Redoma” da Anaïs para mim.

    • Júlia diz:

      Meu deus, Maria, o que me foi lembrar… É tão bom esse livro!!

      «Deitar-me para sonhar não é apenas uma flor de pó nascida como uma rosa das areias do deserto e destruída por uma rajada de vento. Deitar-me para sonhar é plantar a semente do milagre e da satisfação.»

    • Diogo Leote diz:

      Maria, tenho de arranjar um cromo para trocar pela Redoma. O Varguitas não troco por nada.

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