Apenas Viver

Anos atrás teria sido um toque de telefone, e uma voz longínqua através do espaço. Ou uma carta que se abria. Hoje será uma mensagem que acende o telemóvel, um pulsar no ecrã. De um momento para o outro a vida parece ruir, falta-nos o ar. Um abismo que se abre por baixo dos pés. Num ápice o pensamento enrola-se como bobine de filme e assistimos embasbacados a episódios passados ou imaginados que já não reconhecemos.

Uma mensagem que chega de longe e no momento a seguir estamos de pé, hirtos, preparados para uma nova etapa que nunca julgámos possível.

Há sempre algo indescritível que nos leva a sair da cama cada dia que passa. Porque imaginamos sempre limites à vida, quando eles não existem. Nada nos impede de voar.

E é possível saborear o paraíso numa cave sem luz, onde as putas se gladiam pelo cliente que imaginam mais perfeito, também elas enganadas pela visão obstruída. É possível ver o sol numa cela virada a norte, e construir uma praia de areia dourada numa mina de carvão. Imaginar o nosso amor sem limites, como fábula misteriosa da perfeição almejada. A vida morre em quatro paredes, na sublimação do medíocre, onde todos acabamos por sentir conforto. Porque custa ser lançar-mo-nos no abismo, largar amarras e sentir a nossa impotência na vaga forte do oceano. A vida é sempre insegurança por isso a queremos quantificar e numerar, sistematizando-a. Por isso construímos grades e correntes, paisagens metafísicas que mais são monstruosidades das nossas aflições.

A vida não é isso. E tudo pode mudar com uma nuvem que trespassa o céu, o próprio dia escapa a todas as definições, o tempo que se descontrola porque estamos deslumbrados, a mente aberta sobre o precipício constante da vida, sem medo do escuro, caminhando confiantes no encontro com a felicidade. Ali, ao virar da esquina, dizem.

Entre a água fria que nos acorda de manhã e o bater da porta de casa na saída quotidiana há um mundo de excepções que roçam por nós, deixando as marcas de uma esperança infinita, caso saibamos manter os olhos abertos de desejo, o coração húmido de coragem. Tudo é incerteza, e querer catalogar o arrepio do amor destrói o sentido da crença, o acreditar nas sombras da caverna, o sentir o mundo nas tuas mãos. Numerar a vida, dividi-la em fracções divisíveis por denominadores comuns, dissecá-la como se fosse cadáver frio.

Não. Melhor é ter a coragem de respirar o fôlego imenso de um mundo que nos aspira para o infinito.

O melhor da vida é vivê-la. Mas tantas vezes me gasto a pensá-la.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a Apenas Viver

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Agora, pela semelhança do pensar, tenho a certeza que também sou sobrinha em primeiro grau da tia.

  2. Gostei muito, Bernardo. O pensamento enrolar-se como uma bobine, um mundo que nos aspira para o infinito, são imagens que ainda não tinha visto. E tem razão, muito nos gastamos de não a viver.

  3. nanovp diz:

    É a tentação de ficar a imaginá-lá, o que também traz coisas boas claro…e muito contente por ter gostado Eugénia…

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