Apontamentos

Não é só nas Geórgicas que o tempo foge, vai a ver-se o resto da literatura é o mesmo. Eu ia, como quem não quer a coisa, começar a falar sobre A ilha do dia antes, do Eco, e depois trazer para aqui Roberto della Gravia e a sua demanda pelo conceito de longitude. Daí, como não sei fazer contas, pedia depois  à Maria do Céu Brojo que viesse explicar como só ela sabe estes assuntos de tempo e do espaço e suas relações. Achei, entretanto, que era uma malvadeza mas fiquei-me por aqui a pensar em romances de época. No tempo, portanto. E pensei umas coisas assim dentro deste género. O romance de época, e eu vou designar assim a narrativa cuja acção se situa num tempo diverso do do autor, cria a quem se dispõe a entrar por essa via, uma exigência de proximidade.

Tomemos exemplos diferentes. O que faz de O Nome da Rosa aquilo que é? A proximidade entre Umberto Eco e o mundo medieval, seu objecto de estudo desde sempre. O ser-lhe tão comum, tão presente, aquele mundo de bestiários e monges sábios fez com que leitores diversos se tivessem comprazido na leitura de um texto entremeado de frases latinas e pautado pelas horas canónicas. Dir-me-ão que alguns leitores mais não leram do que o enredo policial. Claro. Só o leitor usado, no sentido camoniano do termo, a uma prática sistemática de leitura descodifica num relance as pequenas redes semióticas que fazem as delícias deste romance: Jorge-cego-biblioteca-labirinto-Burgos-Borges, Guilherme-Baskerville- o-cão-dos-Baskerville-Sherlock-Holmes; só o leitor preparado vê Aristóteles em Guilherme e Platão em Jorge e vislumbra a filosofia moderna na figura de Adso de Melk, o alemão com o nome construído sobre um verbo latino, que colhe no passado o que há-de escrever pelo seu punho futuro.

Mas o que trouxe tantos leitores ao livro? O facto de Eco estar tão à vontade dentro do pensamento de Umbertino de Casale como se estivesse sentadinho à sua secretária. Só se mostra bem aquilo que se vê bem.

Vejamos, agora, Bomarzo de Manuel Mujica Lainez, que li na excelente tradução de Pedro Tamen. É um romance fabuloso, na minha opinião. Reconstrói, pelo fio da memória do duque de Orsini, toda a Renascença italiana, nas suas mutações de beleza e de bestialidade, de monstros e quimeras. O trabalho de Lainez é um admirável exercício de imaginação sobre um trabalho apurado de investigação, servido por um léxico quase, quase a aflorar o gongórico mas que se detém sempre antes do excesso. Há aqui a exigência de proximidade é feita ao leitor.

Dir-me-ão: “Sim, claro, pois não havias de ter apreciado. Tu és muito lá dos lados da Renascença. Pensas mais no Lourenço de Médicis do que em qualquer homem vivo.” É verdade, quer dizer, nem tanto até porque o homem que ocupa os meus pensamentos jaz sepultado desde 1603 na capela do Senhor Jesus dos Lavradores, lá em baixo na igreja de Santiago aqui em Torres Novas.  

Dizia eu que  o livro de Lainez puxa o leitor lá para dentro, suga-o para um mundo que, se lhe era desconhecido, passa a não ser. Exige-lhe a proximidade. Estou, ainda, a pensar em Adivinhas de Pedro e Inês da Agustina. Há dois ou três parágrafos nos quais a narradora, com umas referências aos cães que ladram no pátio, aos falcoeiros e ao barulho dos cascos no empedrado, provoca um efeito de sucção que nos faz aterrar, de repente, em pleno séc. XIV, quer queiramos quer não. Mais do que próximos, ficamos lá.

Eis aqui supra um belo exemplo do que não deve ser um texto em blogue de gente decente: uma desordem. Começo eu a querer falar da demarcação do tempo antigo e lembro-me de longitudes, depois medievalista me disfarço e vou por outro lado até à renascença. Sem ordem. Que é como quem diz sem tempo.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Apontamentos

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Sem tempo, sem tempo mas quase coincidimos no tempo as publicações. A da Ivone evocou-me peregrinações repetidas nalguns livros que refere. Aninhada no sofá, roendo maçãs sazonais.

  2. não há desordem nenhuma, há uma reverberação, isto é: várias reflexões que nos chegam e tentamos distinguir, com (alguma)facilidade, umas das outras!
    Estamos a falar de Eco não estamos?
    😀

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