Bifronte

Parecem-me as ruas mais desertas do que nunca. Ou sou eu que vejo menos gente, enleada que caminho em pensamentos-becos. Se a rua é a ordenação do espaço, segui-la devia ser avançar por uma ordem calcetada e pisar harmonias a branco e cinzento. Não é. Não me é. Durante muito tempo pensei que o caos tendia para a ordem e que este em si mesmo continha um movimento que o desfazia. Dito de outro modo, seria o caos um lugar de ante-ordem necessário a que a ordem final se formasse. Aprendi que nunca há essa ordem final. Que o caos e a ordem coexistem, não alternam nem se sucedem. A vida é um lugar bifronte como Jano. As pessoas que não vejo pela rua moram comigo: habitamos o desânimo.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Bifronte

  1. riVta diz:

    perspectivas querida Ivone …experimente lá esse “pisar a branco e cinzento” nuns ‘Louboutin’. Aposto que não há Jano bifrontado que lhe resista. É para isso que servem as Lobo(u)tomias…
    ( e os stilettos claro)

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Afinal, as emoções descritas não andam longe da Teoria do Caos. Tenho mezinha para o desânimo: largar o meu habitual despreparo, pele amaciada, um trapo lavado e confortável. Depois, caminhar num parque, num bosque se estou na minha querida Beira.

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