Bradar aos Céus

Texto, em forma epistolar de redactor da “Vanity Fair”, publicado na revista “Fora de Série” do Diário Económico em Agosto do ano passado. Porque a temperatura está a subir, as meninas gostam e a frivolidade assim o exige:

Brad Pitt

Brad Pitt é tão perfeito que há muito se tornou profundamente irritante. Tem a beleza masculina de um abençoado sorteio genético. Vive com uma das mulheres mais bonitas à face da Terra. É multimilionário e estrela planetária. Há uma horde de donas de casa, ou de manequins, que desmaia cada vez que o homem entra numa sala. Tem seis filhos (três adoptados e três biológicos) com a companheira que elegeu. Alterna o ano entre uma casa em Los Angeles, que desenhou e ajudou a construir, uma mansão em Nova Orleães e um castelo no sul de França. Doa milhões de dólares a movimentos de solidariedade escolhidos a dedo. É conhecido pelo altruísmo e por uma simpatia terra-a-terra. Perfeito, portanto. Só pode haver aqui uma grande aldrabice.

Há uma faceta de William Bradley Pitt, nascido há meio século (faz anos este mês, a 18 de Dezembro, uma semana antes do Natal) numa vilazinha chamada Shawnee, no Oklahoma, que poucos conhecem.
O garanhão que coleccionava namoradas de sonho – esteve noivo de Juliette Lewis e de Gwyneth Paltrow e casou com Jennifer Aniston antes de conhecer Angelina Jolie -, dream boy de pele tostada e longos cabelos loiros que aos 22 anos nunca tinha passado para oeste das Rockie Mountains, teve desde cedo uma paixão muito particular. Uma paixão pouco condizente com a energia rebelde que o caracterizará nos anos 90: a arquitectura – é como James Dean ser maluquinho por física quântica.
Foi na universidade do Missouri, para onde os pais foram viver, era ainda Brad miúdo traquina, que o tipo ouviu falar de Frank Lloyd Wright. Em poucos meses – demorou, mas foi – descobriu o trabalho do arquitecto e designer escocês Charles Rennie Mackintosh. Com apenas duas disciplinas para terminar o curso de jornalismo, Brad percebeu que não seria feliz caso prosseguisse a carreira dos colegas. O amor juvenil pelo cinema fez o resto.
Trabalhou algumas semanas, arrecadou seiscentos dólares, enfiou-se num Datsun a cair de podre e percorreu milhares de quilómetros de autoestrada até à Califórnia. A ideia fixa era tornar-se actor – a arquitectura e o design surgiriam quando tivesse mais tempo, e dinheiro. Ao fim de quinze dias, estava a interpretar com génio uma galinha gigante, suando às estopinhas no fato felpudo enquanto promovia nas ruas de Burbank o restaurante “El Pollo Loco”.

Foram quatro anos a penar em anúncios publicitários, telefilmes, soaps, aparições especiais em “Glory Days” ou “Dallas” – onde era, provavelmente, o único que sabia como se usava um chapéu de cowboy – , voltas e mais voltas para chegar onde queria. A vaga consciência do desígnio estava lá, desde a altura em que viu a “Rosa de Glasgow” de Mackintosh no Missouri, a flor desenhada com uma única linha ininterrupta: “Percebi que havia qualquer coisa superior em jogo; como se fosse possível contar a história da vida de alguém com recurso a uma só linha” (finalmente, um raciocínio escorreito).

O rebelde nómada, o atleta de liceu com vontade de insultar toda a gente na igreja baptista onde os pais o levavam todos as semanas, era um pequeno filósofo vidrado no vanguardismo e na art deco. Quando recebeu o primeiro salário em Los Angeles, a segunda coisa que comprou foi uma aparelhagem. A primeira foi uma Hillhouse Chair desenhada por Mackintosh.
A grande oportunidade pública foi bem mais mundana. Claro que envolveu a imagem sedutora, muito hometown do Midwest: em 1991, no “Thelma e Louise” de Ridley Scott, o panfleto feminista de Callie Khouri que arrasta uma dona de casa e uma empregada de mesa do Arkansas até aos limites do deserto do Utah num Ford Thunderbird de 1966, Pitt não aparece mais do que quinze minutos; foi o suficiente para as senhoras do mundo inteiro arregalarem os olhos e perguntarem para o lado: “Quem é este?”. O seu J.D., aldrabão à boleia, apertado numas Levi´s, enfiado em botas de cowboy, seduz Thelma (Geena Davis), concedendo-lhe o primeiro orgasmo num motel de estrada. Começava a carreira de quebra-corações.

O impacto da fama na cabeça impreparada de Brad Pitt foi tão grande como o impacto no público. Nos anos seguintes, até perto de final da década de 90, o enérgico actor da América rural dispara em todas as direcções, alimentando o estrelato sem ter noção das consequências.
Ainda começa com dois projectos que lhe dão genuíno prazer: o belíssimo “Duas Vidas e Um Rio” para Robert Redford (o filme mais emocionante alguma vez realizado sobre pesca à linha); e “Seven – Sete Pecados Mortais”, para o futuro cúmplice David Fincher, onde é a sua teimosia, consagrada contratualmente, que preservará o impacto do final, mantendo a cabeça de Gwyneth Platrow (a namorada à época) dentro do caixote – os produtores não apenas queriam que o seu detective Mills não matasse o serial-killer John Doe (Kevin Spacey) como preferiam que o caixote revelasse uma cabeça, mas a do cão do casal, removendo gravitas à narrativa.

Ficaria claro que o Pitt que os estúdios, e as bilheteiras, pretendem é o da cabeleira platinada, sorriso de marfim, bícepes lustrosos em forma de “Lendas de Paixão”, “Perigo Íntimo”, “Sete Anos no Tibete”. Fora da tela, sobram a devoção eclesiástica ao haxixe e à marijuana, a santa bebedeira de vinho tinto, o amor por motas de alta cilindrada (tem dezenas, como Tom Cruise), as largas, e inconvenientes, temporadas perdido, à procura da identidade, quebrando o noivado com Gwyneth Paltrow, iniciando uma relação com a princesa das sitcoms, Jennifer Aniston, a aliança tablóide que jamais o preencherá por inteiro (chegam a casar em 2001).
A alta energia permite-lhe uma entrega física aos papéis que esconde a falta de preparação, e de estudos teatrais – é o próprio a admitir que não sabia como interpretar Jeffrey Goines, o doido varrido – e canastríssimo – do “12 Macacos” de Terry Gilliam; ou o cigano Mickey O’Neill de “Snatch – Porcos e Diamantes” (incapaz de atinar com o sotaque da personagem, convencerá o director Guy Ritchie, na noite anterior ao início das filmagens, a deixá-lo tornar incompreensível as palavras do alucinado boxeur).

É o amigo David Fincher a resgatá-lo do limbo com “Clube de Combate”, onde Tyler Durden se tornará figura de culto num filme superiormente anarquista . Fincher dirá a seguir que “as pessoas assustavam-se caso soubessem quanto o Brad é parecido com Tyler”.
Após levar a perfeição icónica – e a água na boca das fãs – ao limite nesse ano de trabalho físico que dedica à preparação do papel de Aquiles em “Tróia” (onde rasgará durante a rodagem o… tendão de Aquiles), é em mais uma grande produção comercial, “Mr and Mrs. Smith” que conhece o inferno na Terra: Angelina Jolie. Para ambos, é tiro e queda.

Para as revistas cor de rosa, será o festim do século – o início do fenómeno “Brangelina”.
Os jornais insinuam que Brad traíra Jennifer Aniston (com quem ainda estava casado). As acusações sobem de tom. Angelina é acusada de destruidora de lares – como se Pitt nada tivesse a ver com o assunto. O actor ainda hoje jura que as filmagens duraram perto de um ano, de forma intermitente, e que apenas após a separação de Jennifer é que se envolveria com Angelina. Temas importantes.

Oito anos depois, Pitt revela-se um tipo sereno. Talvez haja aqui um contrassenso: Jolie não é das pessoas mais fáceis e mentalmente equilibradas do Universo; vive absorta no caos de seis crianças de quatro nacionalidades diferentes (o vietnamita Pax Tien, a etíope Zahara Marley, o cambojano Maddox Chivan e os filhos biológicos Knox Leon, Vivienne Marcheline e Shiloh Nouvel, este em homenagem a um dos arquitectos preferidos de Brad, Jean Nouvel); o casal é obrigado a recorrer a um pequeno exército de amas, empregados e guarda-costas para organizar a logística diária de quatro casas em dois continentes – há também um enorme apartamento em Berlim – na perpétua fuga a um batalhão de curiosos e paparazzi.
Mas Pitt adora a confusão familiar. Estima o espírito benemérito da companheira – na última meia dúzia de anos, o par “Brangelina” doou vários milhões de dólares a instituições de caridade, institutos de investigação médica e organizações de construção de bairros sociais ecologicamente sustentáveis nos EUA, África, Ásia. Por fim, habituou-se a despistar os perseguidores na sua Ducati Monster, em anonimato protegido por um capacete KBC “Gunslinger” – “Com isto na cabeça, sou só mais um cabrão na estrada”. É.

Quando a família se desloca em conjunto,Brad enfia-se num SUV de vidros fumados e refugia-se no castelo oitocentista francês ou na mansão de Hollywood Hills, por ele reconstruída e decorada, incluindo a gruta escondida atrás de uma pequena cascata nos jardins, que garante “ser óptima para fazer amor”. Na alternância de projectos com Angelina, conseguiu agora arranjar tempo para se dedicar ao tal velho sonho: o design de mobiliário.

Quem lhe reavivou a chama foi Frank Pollaro, um fabricante de móveis à medida, de escritório em New Jersey. Numa visita à casa de Pitt em L.A., Pollaro impressionou-se com a qualidade dos milhares de esboços de sofás, cadeiras e objectos decorativos que Pitt concebera e acumulara ao longo de duas décadas. Após dezenas de conversas regadas a tintos franceses e italianos, Pitt finalizou o desenho de 12 peças, expostas em Novembro de 2012 numa galeria nova-iorquina. Com preços tão pornográficos como o salário-base de Pitt – uma cadeira custa 35 mil euros, p.ex. -, os móveis reflectem uma sensibilidade estética e uma qualidade de materiais elogiadas pela “Architectural Digest”: o destaque foi para uma banheira para dois, em mármore Statuario Venato, e para a cama familiar (que culmina num assento onde caberia todo o clã Pitt-Jolie), de cabeceira de madeiras tropicais e desenho em gentis curvas art deco.

Todos os amigos e companheiros de trabalho de Pitt, do malogrado James Gandolfini à pandilha da trilogia “Ocean’s Eleven”, juram que o homem é “mesmo bom rapaz”. Parece, pois, não haver aqui aldrabice de monta – o que, relembre-se, se torna particularmente irritante tendo em conta o figurão. Certo é que, tal como na “Rosa de Mackintosh”, a vida de William Bradley Pitt precisou de dar muitas voltas para se tornar uma linha recta. Voilá.

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Bradar aos Céus

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Estamos então a falar do «ex-rapazinho» pelo qual as jovens suspiravam virando os olhos ao céu não fosse o «piqueno» dele cair a qualquer momento. Jamais entendi, mas em frente. A “Vanity Fair” não o desdenharia como redator, estou certa, desde que escolhesse fotografia suculenta.

  2. Gentileza sua, Maria do Céu. A foto foi, deliberadamente, um downer. Para não ser tudo perfeitinho.

  3. nanovp diz:

    E eu à espera do grande “finnalle” que o homem afinal era todo plástico, ou nazi pedófilo….afinal é mesmo irritante…gostei muito de todos os detalhes Pedro…e o gosto pela arquitectura…quem sabe ainda nis encontraremos um dia, mas deixo a minha mulher em casa claro!

  4. Para bem da felicidade conjugal – a Alexandra não é fã, mas nunca fiando -, arquitectarei um meeting por motivos puramente artísticos e vínicos.

  5. Nem eu era fã, mas passei a ser depois deste fabuloso texto sobre o menino Wil­liam Bra­dley Pitt.
    Talvez quando tiver uns 60 aninhos fique bonitinho 🙂

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