Do poder e da falta que faz pensá-lo

Tenho escrito várias vezes sobre o tema genérico da arquitetura do poder no Portugal pós troika. Numa rapidíssima síntese a minha tese é a que se segue. Era evidente desde o início que o processo de ajustamento pelo qual Portugal iria passar acabaria por conduzir a uma revolução na estrutura do poder em Portugal. É mais discutível, embora seja a minha convicção, que essa fosse, simultaneamente, uma conclusão previsível e desejada. Pela própria Troika e pelo executivo.

Em si mesmo, este facto nada tem de inerentemente negativo. O país tem estado, é um facto, aprisionado por um conjunto de atores políticos e económicos que se foram habituando às doçuras de um longo concubinato de interesses. A economia perdeu em competitividade, o país perdeu, muito provavelmente, em liberdade. A minha crítica tem sido de outra natureza. Se compreendo a necessidade de libertar o país dos bloqueios da estrutura de poder vigente, receio bem que ninguém tenha pensado com um mínimo de profundidade e sentido estratégico no que se seguirá à sua «débacle».

O Estado sou eu mas eu não sei ao estado a que isto chegou

O Estado sou eu mas eu não sei ao estado a que isto chegou

Regresso ao tema numa altura em que é já por demais evidente que o poder mudou em Portugal. No plano político cada vez mais o ar que se respira é o de fim de regime. As guerras – gravíssimas do ponto de vista institucional – entre TC e governo, o processo de hara-kiri em curso no PS, as taxas de abstenção recorde e a emergência com uma expressão significativa de forças políticas anti-sistema são apenas alguns sintomas eloquentes.

No plano económico é o que se vê. A estrutura acionista de todos os bancos mudou de maneira sensível desde o início da crise. Nas telecomunicações o panorama é irreconhecível. A comunicação social tem vivido um terramoto e suspeito que a procissão ainda possa só ir no adro. Podia citar outros exemplos mas fico-me pela cereja em cima do bolo: há agora uma guerra aberta no epicentro do edifício do poder económico dos últimos 20 anos em Portugal.

Posto isto, e provado que está que o poder está a mudar de mãos, a questão que legitimamente agora se coloca é a de saber se vai mudar para melhor. A questão que se coloca, por outras palavras, é a de saber se vamos efetivamente (como previam os «teóricos do ajustamento») sair deste processo sem os bloqueios acima identificados, com uma pulverização de decisores económicos que estimule a sã concorrência, com uma redução radical das teias perigosas que têm unido poderes económicos e poderes políticos. Ou se, ao contrário, vamos sair deste processo com largos setores da economia ainda mais concentrados, com estruturas acionistas que só na aparência são muito diversas, com um aprofundamento ainda mais doentio da relação entre o poder empresarial e o poder político (seja este português ou, como é mais provável, estrangeiro).

Para mim está longe de ser claro que o desfecho deste processo será salutar. Não porque esteja convencido de que existe uma teoria da conspiração de proporções bíblicas, mas porque me parece ter existido, ao longo destes últimos anos, teoria a mais e pragmatismo a menos. Oxalá eu esteja enganado.

Publicado na Visão a 3.7.2014

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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8 respostas a Do poder e da falta que faz pensá-lo

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    O texto lembrou-me, embora com perspetivas diferentes, um que foi publicado no El País escrito por José Villas e intitulado “Um canhão pelo cu”. É forte e vale a leitura.

    • Pedro Norton diz:

      Ó Maria do Céu. O título é forte e um bocado, vá, desgradável. mas onde é que se lê?

  2. Não tenho orgulho da época em que vivemos, com gente, pois gente não são pessoas que não tem princípios nem valores, espero que Portugal daqui a 100 ou 200 anos seja um país diferente, para melhor, com pessoas honestas e com princípios (que as há)! Mas viver neste meu tempo tem-me permitido assistir na linha da frente a uma novela que ficará para a história pelo mais negativo que possa haver, a sede de puder por parte dos que se acham poderosos e a consequente destruição dos mesmos. Temos assistido a uma ganância destrutiva, em que as “elites” se destroem umas às outras para chegarem ao topo, para terem o controlo sobre tudo e todos, do tenho muito mas não me chega. Vivemos numa época que foi profetizada em filmes como “O Homem Demolidor” entre outros. Na minha triste forma de ver, tudo isto é gerado pelos legados familiares, onde o filho segue a ideologia do pai, e por ai em diante, até que chegará o dia onde só haverá poleiro para um galo e ai começa a novela. Veremos como param as modas!

    • Pedro Norton diz:

      Olá João,
      O mundo não anda fácil, de facto. E eu, como digo, não estou optimisto em relação ao nosso cantinho. Mas se desistirmos todos a coisa só pode ficar pior.
      Abr.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Vejo pequenos e localizados sismos em muitos sectores, mas ainda não vejo, e cito-o, Master, a “redu­ção radi­cal das teias peri­go­sas que têm unido pode­res eco­nó­mi­cos e pode­res polí­ti­cos”. Também, porque esse Estado, que ainda não sabe em que estado está, não larga, quanto mais não seja porque a alternativa não se perfila.

    • Pedro Norton diz:

      Não a vemos porque provavelmente não existe. Mas para mim, que não sou revolucionário, é das poucas revoluções que gostava de ver.

  4. Acho que vamos ter que voltar a ter Organização Política e Administrativa da Nação. Agora no kindergarten

  5. nanovp diz:

    É preciso tempo para as mudanças, e provavelmente o país será irreconhecível dentro de alguns anos…nunca saberemos se para melhor ou pior…

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