Educação Sentimental*

Vejam lá que um artista, fotógrafo com pinceladas de cineasta, João Marchante de seu nome, me convidou para juntar umas palavrinhas alusivas à sua mais recente exposição (um escrito que na gíria se chama folha-de-sala), intitulada Educação Sentimental (assim mesmo, como o livro do Flaubert). Eu, que não sou nem comissário nem crítico de arte nem galerista nem sequer entendido na matéria, pensei logo em educadamente dizer que não, invocando precisamente a minha falta de habilitações ou qualificações para a empreitada que o João, tresloucadamente, pretendia confiar-me. Mas depois lembrei-me do Bidarra e do seu Muro de Palavras. E, que diabo, se os especialistas, como o sagaz Bidarra tão eloquentemente descreve, são totalmente incapazes de nos fazerem perceber – a nós leigos, curiosos e com um mínimo de informação – uma palavra que seja da verborreia dos seus catálogos e folhas-de-sala, talvez um rapaz com boa vontade como eu, que está fora do “meio” mas que vai espreitando para o que nele vai acontecendo, tivesse a sensibilidade mínima necessária para produzir um texto que, não desmerecendo das sedutoras imagens do João Marchante, fosse, para o comum dos mortais, minimamente ilustrativo e apelativo. E, já com a minha capa de grande educador do povo português vestida, lá acabei a dizer que sim ao João. E saiu isto.

Helena

Helena

 Helena gostava de se sentar ao piano a altas horas da noite. As flores tatuadas nos braços, a franja à Louise Brooks, os olhos claros – aqueles olhos que iluminavam a mais escura das noites – a obrigarem a cabeça a um movimento vertical de transcendência, como se, de lá de cima, das alturas, viessem as instruções para a melodia, sempre suave, com que ousava interromper o silêncio nocturno.

Teresa

Teresa

Teresa também despontava de noite. Ao seu lado, a Béatrice Dalle, que eu tinha nos píncaros da sensualidade feminina, passaria despercebida. Através de uma câmara escondida num recanto do seu quarto, ganhei o hábito de a observar enquanto preparava as suas saídas nocturnas. Nunca a vi que não fosse pelo olhar que a câmara protegia. E ainda bem, pensava eu, dava para perceber que tinha vindo ao mundo para desgraçar os homens.

Joana

Joana

Joana vivia no lusco-fusco dos terraços, ali onde cruzam os Estados Unidos da América com a Avenida de Roma. Não era deste tempo, nem deste mundo. Ou tão deste mundo como a Claudia Cardinale a fazer de Angelica no Il Gattopardo do Visconti. Sempre que ia ver o sol a pôr-se para esses lados, lá estava ela, vestido comprido de época, dama de uma corte decadente de costumes, a fingir que não era nada com ela. Como se um pobre coitado como eu pudesse não reparar na sua misteriosa presença, pudesse não ter vontade de se atirar dali para baixo para se tornar tão imortal, tão eterno, quanto ela era.

Catarina

Catarina

E a Catarina, que irrompia, deliciosamente perversa, displicentemente atrevida, quando se embaciava o espelho da casa de banho. E este, sei lá por que passe de mágica, virava lâmpada de Aladino à mercê de todas as minhas mais secretas fantasias. Tinha qualquer coisa, também, da Louise, da Béatrice e da Claudia, mas ao mesmo tempo lá estava aquela milionésima parte de diferente de que falava o Kundera, que a distinguia de todas elas e de todas as mulheres belas do universo.

E ainda havia a Maria, a Joana, a Rita, a Marta, a Patrícia e muitas outras que, tal como a Helena, a Teresa, a Joana e a Catarina, talvez nunca tenham existido segundo os cânones da ciência médica. Mas, assim que me foram reveladas pela câmara do João Marchante, tive a certeza de que eram elas as mesmas que me visitavam nas profundezas da noite, nos mais íntimos redutos do meu subconsciente desde os primórdios da minha vida adulta. Nas inconfessáveis fantasias que passaram a habitar, gostava de lhes atribuir nomes de mulheres comuns para delas me sentir mais próximo. E era nesse estimulante limbo entre o real e o virtual, que só o olhar de fotógrafo-cineasta do João tornou possível, que se desfiava toda uma narrativa, todo um imaginário que o crepúsculo fazia ressurgir, noite após noite, para desaparecer sem deixar rasto ao mais leve sinal da luz solar.

Quando o João me honrou com o convite para escrevinhar algumas linhas sobre esta sua Educação Sentimental, ainda procurei convencê-lo de que tinha vindo bater à porta errada, que o seu trabalho mereceria palavras mais sábias e eruditas, que eu, manifestamente, não estaria à altura da sedução que emanava das suas imagens. Fiquei, rapidamente, sem argumentos: como dizia Mestre Cesariny, “afinal o que importa não é a crítica de arte”. Talvez importe, sim, outra coisa, do domínio do indizível, que só as imagens do João conseguem transmitir. Uma espécie de marca imperceptível da memória, de segredo do subconsciente, vindos de tempos distantes, que andavam à procura do filtro que a câmara do João veio, finalmente, desvendar.

* As imagens exibidas são fotografias sobre os originais do João Marchante e não lhes fazem, claro está, a justiça merecida (desde logo pelo substancial encurtamento das suas dimensões de 100×124 cm). Ou seja, não dispensam a visita à exposição, que estará patente na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Rua da Escola Politécnica, ao Princípe Real) até ao dia 27 de Julho. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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11 respostas a Educação Sentimental*

  1. riVta diz:

    acho mesmo que devíamos ir em excursão espreitar as fotos que fotografaste tão mal (risos) dobrar em quatro a folha de sala e a reler sempre que nos quisermos sentir observadas.
    😀

  2. Tens toda a razão, Rita: as minhas fotografias são mesmo más. São tão más quanto boas são as do João Marchante. Mas peço-te que não vás já a correr para a Sala do Veado, está fechada à segunda-feira.

  3. Pedro Norton diz:

    Diogo, deixemos pois as fotografias para o João e os textos para ti. Assim, fica, como diria outro dos nossos amigos franceses, “Tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes”

  4. Este nosso blog está a transformar-se numa referência da fotografia. E não estou só a referir-me, longe disso, ao nosso mestre Marchante, n´est-ce pas, Monsieur Norton?

  5. Sem dúvida, Portugal espalhou.

    (ps: pela evolução do referente, o país e o seu povo, os verbos transitivos vestem melhor sem o complemento direto, porém, por alguma razão extra gramatical, o significado parece iludir-se, o que me obriga a esclarecimentos adicionais: Portugal espalhou a robusta cultura ocidental pelo mundo, e, no afastado Japão, para além de introduzir a espingarda, o choro e a bola de sabão, também suas mulheres, antanho, introduziram o pitoresco lenço na cabeça. Fotogénicas, hoje, introduzirão. Outra vez, por este bug linguístico, carece uma explicação adicional: introduzirão elas, o corpo Danone)

    • Diogo Leote diz:

      Taxi, vamos lá directos à forma correcta do uso do verbo: Portugal espalhou-se. E mais nada.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Estou com a Rita – excursão já!

  7. nanovp diz:

    Todos ao Natural….

  8. E antes que se faça tarde, Bernardo, porque a coisa acaba a 27 de Julho.

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