Física e ‘Cowboys’

Philip Hawkins – Cock of the North

Philip Hawkins – Cock of the North

Sou do tempo em que o único canal televisivo entretinha gentes remediadas com matinés inocentes onde pontificavam coboiadas romanescas. Havia tiros e corria sangue, verdade, embora o preto e branco dele fizesse caldo de borra de cigarro. Ingredientes quase certos eram diligências fáceis presas dos mauzões, paisagens desoladas com cilindros de ervas secas enrolados pelo vento, xerifes e bandidos. Forcas quando calhava. Depois, havia a bendita certeza do filme acabar bem com o pistoleiro nos braços duma donzela em bom recato ou no quarto de refinada jovem prestativa em qualquer saloon. Já a tarde ameaçava sono quando a matiné era finda. Pequenada contente, mãe bordando, pai ouvindo relato de futebol, tarde de domingo invernoso bem passada.

Ora, dá-se o caso de ter sido questionada sobre a razão das já tremeliques pontes pênseis de madeira nos filmes do faroeste só darem de si após o comboio dos «bons» passar, feita antes marcha-atrás. A bandidagem era obrigada a estacar e os malvados da frente caíam na ravina funda como algumas gargantas que ‘eu cá sei’.

Recorri aos Spaghetti werstern ou Bang-bang à italiana vistos e revistos nas matinés da TV – acabada a exibição do lote de filmes em stock, eram repostos os velhinhos a cintilar como estrelas cadentes. Pois a meu ver, resposta simples: ao ver-se acossado e enquanto recuava, o maquinista ordenava mais lenha na fogueira propulsora. Ir em frente a toda a velocidade de modo a que num determinado intervalo de tempo a pressão exercida sobre a ponte pela tormentosa força gravítica do comboio fosse minimizada.

Em leis e equações, a explicação dada pela Física: sendo as grandezas peso (P) e aceleração da gravidade (aqui representada por k) vetoriais, isto é, definidas por intensidade, direção e sentido, a massa grandeza escalar (expressa apenas por um número), decorre, pela Segunda Lei de Newton, que

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A grandeza pressão, escalar, é definida matematicamente pela norma da força (neste caso, o peso) sobre a área (grandeza escalar) onde é exercida.

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Sendo que:

_ P é a pressão;

_ F é a força normal à superfície;

_ A é a área total onde a força é aplicada.

Tudo muito desembaraçado e coisa e tal, todavia com, no mínimo, dois senãos:

_ não recordo o nome de um único western em que surgem situações como a questionada;

_ será que a quantidade de movimento nada tem a ver com o facto?

«Franchement» vos digo não estar com a menor vontade de consultar canhenhos que me reavivem memórias estafadas.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

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7 respostas a Física e ‘Cowboys’

  1. António Barreto diz:

    Sistema de forças; F1 vertical descendente relativa à massa F2 horizontal no sentido do movimento relativo do comboio. O ângulo da resultante tende para a horizontal quando F2 aumenta, reduzindo a carga sobre a ponte. O comboio não deve acelerar na ponte, sob pena de esta ruir devido à força de reação; deve entrar “lançado”, por isso vai perdendo velocidade, aumentando o ângulo da resultante e a carga sobre a ponte, atingindo o valor máximo precisamente na saída, razão porque esta colapsa e o chefe dos bandidos vai parar ao fundo da ravina. Concorda?
    Aproveito para “desafiar o caro Manuel a dar-nos aqui uma breve lição sobre western’s; Lee Van Cliff, Burt Lancaster, Glenn Ford, Henry Fonda, James Stuart, John Wine, Jeff Brigs, Allan Lad, etc.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Sendo a minha área mais Química do que Física, não vejo razões para discordar da sua interpretação. Faz sentido e não contradiz a que abaixo nos é sugerida.

      Obrigada pelo apelo relativo ao cinema. Vinha a calhar.

  2. JG diz:

    Dormi sobre o assunto:
    Em estática, a resultante da regra do paralelogramo indica tão só o sentido da força que faria ruir a ponte e com ela a queda do comboio. Em dinâmica, a velocidade do comboio não é suficiente para minimizar o peso próprio mesmo sabendo que a carga varia no espaço em cada instante do tempo.Para provocar ruptura, basta que o peso próprio da composição seja superior à reação nos apoios; em resistência de materiais, os apoios aguentam quando o somatório dos momentos à esquerda mais o somatório dos momentos à direita são iguais a zero.
    Conclusão: ou a ponte aguenta ou vem tudo ao charco quer passe depressa ou a pisar ovos.
    Mas então o que faz parecer ter toda a lógica o facto do comboio tomar balanço e percorrer a ponte a toda a velocidade?
    Na “coboiada” a ponte é-nos sempre apresentada como manhosa e periclitante. É feita de troncos de árvore pregados numa construção estritamente utilitária de duvidosa resistência.
    É aqui que reside o busílis – no fenômeno de ressonância mecânica.
    Toda a estrutura tem uma vibração crítica pela qual deve passar o mais depressa possível. Quando deixamos “morrer” o nosso carro em 2ª a carroceria vibra na frequência do motor; se não carregarmos depressa na embraiagem parte-se tudo. Num tubo de água quando entra ar, toda a instalação vibra; se não abrirmos a torneira toda ou a fecharmos depressa, partem-se as braçadeiras que suportam a tubagem. Um pelotão alemão, a marchar com o passo absolutamente certo, fez ruir uma ponte porque esta vibrou na frequência do batimento.
    De volta ao nosso exemplo, quando o comboio entra na ponte construída às 3 pancadas, ela inicia uma vibração que vai aumentando até vibrar em sincronismo com a composição. De uma forma quase romântica,para dar enfase à aventura e à coragem, a ponte colapsa “sempre” que a última carruagem passa. É “fita”, é rebuscado, mas que intuitivamente tem a sua lógica, lá isso tem.
    Embora a cena seja recorrente em Westerns não me lembro de momento do nome dum filme onde ela se veja.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Um mestre em engenharia e, por decorrência, na mecânica, constato. Esclareceu de modo brilhante e em linguagem acessível a teoria da vibração das cordas e os fenómenos periódicos em geral. Nota máxima.

      Grata pelo que acabou de ensinar.

  3. a.r. diz:

    A queda de pontes em filmes de western, julgo ser um efeito recorrente de espectacularidade e do aproveitamento da própria destruição do cenário, situação normalmente aproveitada pelos realizadores.

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