Gardénias para ti

Pintura em seda atribuída ao Imperador Huizong, Dinastia Song do Norte da China – “Gardenia and Lichee with Birds”

Pintura em seda atribuída ao Imperador Huizong, Dinastia Song do Norte da China – “Gardenia and Lichee with Birds”

Nunca soube dançar o tango com os adequados requebros e aventurosos passos. Arremedo – mais não faço. Mas gostava de o saber bailar. De me sentir envolvida em abraço forte que conduzir-me soubesse. De percorrer o soalho, harmonizada com o acordeão, as violas, as guitarras, as vozes dolentes gravadas em disco ou vindas de orquestra improvisada. Mas não sei.

Dia a mais ou a menos, inscrevo-me nos “Alunos de Apolo”, preencho formulários sendo necessária burocracia no cumprimento de um gosto. Ou apareço, espreito os bons dançarinos e requeiro ensinamento daquele que aceda em aturar-me. Talvez consiga. Talvez me vicie no balanceio. Talvez não prescinda do exercício que ginásios esquecem. E a mulher, baterá tacões na madeira, curvará a coluna sob o parceiro mandador, ensaiará riscos do corpo, deleitar-se-á com a novidade que a faz vibrar.

Vestido colado à pele, denunciante das imperfeições nos volteios, roda após a curva da anca até à bainha para que pernas libertas avancem e retrocedam e encaixem nas do mandador/professor. Gardénia que prenda o cabelo liso no escorrego pelas costas. Gardénia no tornozelo direito tapando o botão onde a tira do sapato cola à perna. Então, saberás como aprendi e sempre dancei para ti.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Gardénias para ti

  1. riVta diz:

    Oh my dog! não sei bem se isso é um Tango…
    😀

  2. a.r. diz:

    Não se trata de uma capricho, mas creio que vale a pena ler as letras de algumas canções escritas em português ou espanhol, no caso em apreço um tango, dada a fácil interacção que nos provoca.

    Buena Vista Social Club

    Dos Gardenias

    Dos gardenias para ti
    Con ellas quiero decir:
    Te quiero, te adoro, mi vida
    Ponles toda tu atención
    Que seran tu corazón y el mio

    Dos gardenias para ti
    Que tendrán todo el calor de un beso
    De esos besos que te dí
    Y que jamás te encontrarán
    En el calor de otro querer

    A tu lado vivirán y se hablarán
    Como cuando estás conmigo
    Y hasta creerán que se diran:
    Te quiero.
    Pero si un atardecer
    Las gardenias de mi amor se mueren
    Es porque han adivinado
    Que tu amor me ha traicionado
    Porque existe otro querer

    Relativamente à sua simbologia, a gardênia é muito usada por pessoas que querem revelar os seus sentimentos. Ela pode significar pureza, sinceridade, doçura e também pode ser o símbolo de um amor secreto.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Perco-me por gardénias que, sei lá o porquê, associo à minha amada América Latina.
      Grata pela letra de que apenas conhecia uma parte que muito cantarolo.
      A simbologia? Jackpot!

    • a.r. diz:

      Há pouco, deixei-me sugestionar pelo texto de Maria do Céu e identifiquei a música Dos Gardenias como tango, do que peço perdão. Dos Gardenias é efectivamente um bolero escrito por Isolina Carrilo e foi registado em 1948 na Sociedade de Autores de Cuba. Segundo colhi, terá sido o esposo de Isolina Carrilho, o barítono Guilhermo Arronte que a estreou publicamente. Posteriormente muitos artistas interpretaram esta composição imortal, como o já referido António Machin e, além de outros, Nat King Kole.

  3. melrisses diz:

    Quem resiste às gardénias e ás lichias,…..eu é que não aguento.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Não resisto a ambas. Mal parece perguntar, mas também não resisto: não aguenta por?

    • melrisses diz:

      Como acha que se pode comportar um melro, perante tão celestial quadro naturalista? Por um lado, as gardénias sublimam-me os sentidos e, por outro, o néctar da líchias extasia-me os âmagos. Deixem-me sonhar enquanto não vou parar ao céu…………………………..da boca de algum gatorro.

      • Maria do Céu Brojo diz:

        Agradeço a amabilidade de responder – e de tão bela maneira! – à minha pergunta.

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