Manual de Instruções Interdito a Homens

Diego Rivera (1886  - 1957), por quatro vezes experimentado cônjuge, incluindo o vulcânico casamento com Frida Kahlo. Talvez aqui representada uma Clotilde Micro-ondas.

Diego Rivera (1886 – 1957), por quatro vezes experimentado cônjuge, incluindo o vulcânico casamento com Frida Kahlo. Talvez aqui representada uma Clotilde Micro-ondas.

Mulheres: quando os vossos homens forem para a noite das urbes não há perigo que vos atormente. Sendo rara a surtida, liberem-nos com a vossa bênção. Importa recordar que no exercício da conjugalidade, os parceiros estão isentos de autorização em papel timbrado e devidamente assinado pelo outro na satisfação de vontades consensuais. Fora de causa, dizeres alfinetados, «trombas» na ida e/ou à chegada. Não esqueçam – somos utentes de fama e proveito no requinte dos nossos amuos. Nos silêncios. Na recusa ao diálogo pacífico. Na lâmina cortante em que nos transformamos caso atrevam fuga aos limites do nosso desagrado: auto-estrada com três faixas nos dois sentidos. Impõe-se desmentido. Obedecer a Darwin na evolução do pensar que dita comportamentos.

À laia de favor ao «eu» feminino, a noitada apetite raro não merece intolerância expressa num voltar de costas quando ‘pé-ante-pé’ regressam ao espaço domesticado. Mais defendo: salvo fedor etílico que recomende enfiá-los em duche de água fria para satisfazermos o legítimo direito a sono arejado, cheguem sóbrios ou alegrotes, a escapada pede mútua curtição e alguns «ses». Se desejada pelos queridos. Se chegámos antes. Se insónia nos assarapantou. Cumpridos estes itens, riso ou lamento genuíno na narrativa do acontecido. Merecem pela desigualdade – eles podres de cansaço, nós finas como alhos. Quando calha, resulta em momento alto da conjugalidade.

Os avaros no verbo ou nas verdades possíveis soem responder assim à malvada adrenalina quadrilheira: _ “Hã? Menos mal. O costume.” Habituadas que estamos a «lê-los» nas entrelinhas e na postura – julgamos em ledo engano -, seria memorável comunicamos a tradução íntima do relato. Os loquazes são divertidos. Roubar ao sono fatia para humor luzindo cumplicidade, deuses, quanto gozo! Que pico histórico na «mornice» diária! Aos ‘danados para a brincadeira’ e sensatos no que é ou não legítimo a respetiva saber – direito que lhes assiste e responde ao atávico pensar masculino sobre a nossa virginal ignorância (“uns tansos!”, exclamamos para dentro) – aconselho-vos consideração + educação paciente. Picardias brejeiras à solta nas ocasiões em que o estilo, o chique, o bom senso e as roupas vão às malvas, dão liberdade, alegria, saúde.

A noite «profissional» de Lisboa é, efetivamente, uma pepineira. As moçoilas, apetitosas como alheira de perdiz, raramente dispensam tempo ao fogo masculino que não luza automóvel estiloso, despesa a sugerir largura no saldo da conta bancária. Quando muito, sorriso torto, requebro displicente ou alçar de rabo cujo significado é: _ “Olha este parvo!” Para aqueles bem providos em casa ou no trabalho, as referidas não valem um Trincadeira Reserva. Para melhor, têm a respetiva e a Clotilde Micro-ondas do backoffice enquanto feliz possuidora de relevante par de mamas e nádegas. Funciona que nem isqueiro criminoso deflagrando incêndios em mata alheia. Às respetivas dá arranjo:  eles recolhem previamente aquecidos ou em brasa consoante a Clotilde.

Depois, existem passarelas onde se contorcem meninas importadas ou da nata portuguesa. Eles babam-se, riem muito, em grupo, são teatro danado. De quando em vez, à custa de euros muitos, almejam que a escolhida na montra do show(?!) ou no «vai-e-vem-circulante» roce neles. O tempo a contar. Sem tocar. E elas rodam na embalagem convincente. Perfeitas. Esbeltas. Bem despidas se o palco do leilão imitar requinte. Eles regressam mais esfomeados do que entraram. Quem beneficia no final da noite? Pensem, congéneres! Não tendo amásia disponível, serão as conjugadas espertalhonas a ter noite de truz. Nem mais!

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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2 respostas a Manual de Instruções Interdito a Homens

  1. luis Lopes diz:

    Sábias palavras , com essa mágnifica postura muitos casamentos seriam um exito. Gostei particularmente da Clotilde e da Amásia que se usava muito.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Concordo em absoluto quando referiu amásia e Clotilde como termo e nome em desuso. Agradeço a sua opinião.

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