Máscara grega magia

Envolvida durante algum tempo, demasiado tempo, nuns estudos sobre uma recente recriação da Medeia de Eurípides, pensei que não conseguiria voltar a olhar tão cedo para os ímpetos da desesperada cólquida. Mas eis que me fizeram chegar um link com uma referência à Medeia escrita por Tom Paulin e estreada pelo Northern Broadside Theatre em 2 de Fevereiro de 2010.

Paulin foi professor em Oxford, é um poeta de renome e as suas críticas inflamadas são bem conhecidas. Dos excertos que consegui ler, o que mais me tocou foi a sonororidade e o ritmo das falas, o talento poético de Paulin a recriar uma toada plangente e melancólica, como nesta fala da Ama:

It’s a lunk hot day today hot baking hot and as still as death with never a breath of any wind./ I wish that thing had never happened never never happened.

Dou por mim a pensar mais uma vez nos caminhos inesperados da intertextualidade, na contínua e incessante repetição criativa das palavras já ditas, como se, em cada nova recriação, a arte procurasse uma mais precisa explicação do Mundo em vez de apenas o representar.

A nossa Eugénia, escreveu no saudoso É tudo gente morta, que Deus Nosso Senhor tenha em bom descanso, um post sobre Medeia e ilustrou-o com este quadro de Bernard Safran, pintado nos anos sessenta:

safran

Safran, um realista norte-americano, escolheu como modelos dois rapazinhos da vizinhança e uma amiga da família. Se as cores revoltadas por detrás das figuras nos podem remeter para os céus da tragédia ática, o ar sofrido, mas tão lady next door, da figura feminina é inquietante: a inquietante revelação de que Medeia pode surgir em qualquer lado, sob qualquer forma.

Não sei se a revisitação infindável de um texto matricial de modo a desenhar sobre ele e a partir dele novas formas e novas representações poderá, a um determinado momento, esgotar as possibilidades que nele se abrem.

A arte não resolveu ainda os dilemas que, na tragédia antiga, se apresentavam aos humanos. Reproduziu e representou-os reiteradamente e é nessa repetida busca de significados que alguma explicação se poderá encontrar. Se a houver.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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Uma resposta a Máscara grega magia

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Julgo que as artes plásticas ainda hoje procuram o mesmo. Revisitação infindável dos comportamentos humanos, alguns sofridos.

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