O dia em que as bundas portuguesas ficaram mais tristes

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“Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado. Bundas de homens e mulheres. Toda a mulher portuguesa dá a bunda, ou pelo menos dava, para manter a santa virgindade vaginal, como aqui. Hoje, com a entrada na Comunidade Europeia e outras mudanças – eles hoje detestam o Brasil, sabia? Português de-tes-ta o Brasil, com excepção do Mário Soares, do Saramago, do José Carlos Vasconcelos e dois ou três outros gatos pingados, desprezam mesmo, é uma pena -, não sei mais como estão as coisas. Provavelmente nunca mais será ouvida a pergunta imoral que um amigo meu escutou, depois de enfrentar galhardamente a primeira com uma portuguesa belíssima, ele que até antes estava com medo de broxar. Ele me contou que, satisfeito e aliviadíssimo, estava fumando o tradicional cigarrinho post coitum, quando ela olhou para ele e falou: “E ao cu, não me vais?”

 

Morreu-me, morreu-nos, o João Ubaldo Ribeiro. O autor de um dos livros da minha vida, A Casa dos Budas Ditosos, do qual já aqui fiz o devido elogio. Para quem não sabe, A Casa dos Budas Ditosos é um escrito pornográfico da primeira à última linha. Mas para que não me tomem já como um velho depravado, talvez ajude dizer-vos que foi com ele que me libertei do óbvio preconceito segundo o qual toda a pornografia é lixo. Fiquei a saber que, sim, é possível a pornografia também ser sinónimo de grande literatura e conjugar bem, mesmo, com algumas das mais geniais páginas escritas em língua portuguesa.

Ontem, o dia em que a terra levou o João Ubaldo Ribeiro, foi um dia triste para todos os que tiveram o prazer de o ler. E foi um dia tristíssimo, também, para as mulheres portuguesas, leitoras ou não do João. É que foi dele, e continua a ser dele, o maior elogio jamais feito à bunda feminina portuguesa. O que leram lá em cima é só um exemplo – talvez desvirtuado, conceda-se, pelo correr dos tempos, pois é bem sabido que a santa virgindade vaginal está muito longe de ser o que já foi em Portugal – da generosidade do João nesse particular capítulo.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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16 respostas a O dia em que as bundas portuguesas ficaram mais tristes

  1. Júlia diz:

    «é pos­sí­vel a por­no­gra­fia tam­bém ser sinó­nimo de grande lite­ra­tura»
    totalmente de acordo.

    (O Sargento Getúlio é top, também)

    • Diogo Leote diz:

      Cara Júlia, ainda não li o Sargento Getulio, assim como o Viva o Povo Brasileiro!, mas um e outro estão entre as minhas prioridades para os próximos tempos. E o João Ubaldo Ribeiro, pelo que fez pela língua portuguesa, merece, especialmente nesta hora, a prioridade máxima no que toca a leituras.

  2. Passarinho diz:

    Apesar de ainda não ter lido o título que referiu, o excerto lembra-me muito Pierre Louÿs que também usava o sexo como temática central em algumas das suas obras, para grande escândalo da sociedade e como forma de transgressão e experimentação literária também.

    • Diogo Leote diz:

      Ora que bela recomendação que acabou de fazer a um amante da grande literatura erótica. Para quem se inicia no Pierre Louys, o que aconselha?

      • Passarinho diz:

        Pierre Louÿs escrevia sobretudo lírica erótica. Muito pouco da sua obra está traduzida para o português. Aliás, penso que não deve ser um autor muito lido, pelo menos é raro eu contactar com um leitor que o conheça. Sugiro “Manual de civilidade para meninas”, numa edição da Fenda, ilustrada de forma magnânine por Pedro Proença. Espero que consiga encontrá-la, o mais provável será ter que fazer encomenda ao editor.
        É um livro despudorado, mas muito cómico, escorrendo sátira em cada verso. Lê-se duma assentada!
        Se tiver oportunidade de o ler, gostaria muito de saber qual o seu veredicto. =)

  3. Diogo Leote diz:

    Muito obrigado, cara Susana (ia escrever “cara Passarinho” mas apercebi-me a tempo que teria outra forma de me dirigir a si). Com certeza que o lerei em breve (só a ilustração do Pedro Proença já me faz crescer água na boca), com certeza que virei aqui comentá-lo consigo.

  4. Passarinho diz:

    Ainda a termo sugestivo, penso que deverá conhecer a colecção editada pela Tinta da China e que se intitula “Livros Licenciosos”. Textos de uma impudicícia que fará corar os ditosos, mas que nada têm a ver com o lixo que hoje se vende com o pretenso nome de “literatura erótica”. (Que convenhamos de literatura não tem nada, e de erótico muito pouco, mas isso são outros rosários)
    Se encontrar “O pauzinho do matrimónio”, não o deixe passar em falso! Mais uma vez, irá dar umas valentes gargalhadas e as ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro também não vão desiludir.

    Nota: relativamente ao meu comentário anterior, fica só a adenda a *reconhecidos [os escritores] e não *reconhecidas [as leituras]. O uso da gramática não foi feliz, e infelizmente não revi o comentário.

  5. Não sei se dessa colecção (julgo que não), tenho o “Entre Lençóis – episódios inocentes para a educação e recreio de pessoas casadoiras” o “O vício em Lisboa – antigo e moderno”, duas preciosidades bem antigas com edições recentes da “Tinta da China” que lhe recomendo vivamente. Vou tentar encontrar “O pauzinho do matrimónio”. Agradeço-lhe uma vez mais as suas sugestões. Entretanto, ainda hoje voltarei aqui com um livro que, estou certo, irá reconhecer.

    • Passarinho diz:

      São ambos da colecção que referi. Se tiver curiosidade em conhecer todos os títulos que a integram aqui fica o link da página da editora http://www.tintadachina.pt/themes.php?code=ff18a26394df66bcccdb555cda128014
      (se quiser poderá apagr o link mais tarde, não vá alguém incomodar-se com publicidade gratuita).
      O único defeito que consigo apontar é mesmo o de considerar que o preço poderia ser mais simpático.
      É uma pena que os livros sejam, de modo geral, tão caros (comparativamente com preços praticados noutros países, como o Reino Unido, p.e.).
      Quanto à sua próxima publicação, passarei por cá mais tarde que já me deixou curiosa!

  6. Long live portuguese bundas.

  7. Obrigado, Susana, o link é mesmo para ficar e desconfio que me vai ser muito útil no futuro próximo.

  8. Portuguese bundas forever, my friend.

  9. luis Lopes diz:

    Não fico triste de ser cá da Terrinha e usar o termo CÚ ,embora Bunda seja muito mais “saboroso”,dto isto posso afirmar que os dois são bons e eu gosto.

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