O mais difícil dos ofícios

Oficio-72dpiHá livros nos quais devíamos pegar com todo o cuidado, como se segurássemos nas mãos um coração que, por razões misteriosas, nos foi confiado. Como este Ofício de Viver, o diário escrito por Cesare Pavese para um público (sempre necessário para a obra) que havia de vir, durante os últimos 15 anos da sua curta existência, em que o papel amarelecido lembra pele e a tinta negra das palavras esconde um vermelho escuro de sangue. Na hora da sua morte, Pavese deixou-o organizado dentro de uma pasta, para publicação póstuma. Como costuma acontecer sempre que estamos diante de um registo confessional, parece que o diário foi escrito apenas para nós, na forma de um segredo contado baixinho (mesmo nos momentos de maior revolta ou desespero do autor, em que o imaginamos a gritar) aos nossos ouvidos.

Ofício de Viver foi editado pela Portugália em 1968, na colecção Documentos Humanos (curioso nome para albergar este título) com uma inspirada capa – de quem haveria de ser? – de João da Câmara Leme. Um pequeno vulto negro caminha de costas para nós sobre uma espécie de escadas em espiral. Parece estar condenado a repetir-se na roda dentada dos dias, mais eis que se afasta. Nesta primeira edição portuguesa, com tradução de Alfredo Margarido, não aparecem os textos censurados descobertos já na década de 90, assim como referências a nomes de pessoas que então ainda estariam vivas, conteúdos demasiado íntimos e eventualmente chocantes. Para os lermos, tivemos de esperar até 2004, quando a Relógio D’Água reeditou a obra com essa mesma tradução e nela incluiu os fragmentos inéditos traduzidos por Margarida Periquito. Também apenas então o título ganhou o artigo definido masculino singular: O Ofício de Viver.

E só o título da obra já dá tanto que pensar. Se viver é um ofício – o Ofício – não deveríamos receber, desde que nascemos, um ordenado (de preferência isento de impostos e de descontos para a segurança social) pelo facto de sermos humanos? Ou então, um subsídio vitalício para suportarmos a nossa condição? Viver não será uma profissão a tempo inteiro? E por que motivo haveríamos de ter todos idêntica capacidade para exercer com sucesso a difícil função de viventes? Acaso teremos todos talento para ser futebolistas, canalizadores, pintores, médicos, designers, contabilistas, agricultores ou engenheiros? As biografias de grandes figuras da humanidade dizem-nos, de forma incansável, que os génios têm personalidades pouco condizentes com a chamada vida normal. O diário de Pavese narra-nos precisamente isso: o drama do génio incapaz de ter êxito na vida pessoal. Porque no que toca à sua vocação para viver, e inversamente ao seu talento para ser escritor, poeta, tradutor e editor, Cesare Pavese apenas conheceu o insucesso. É ele próprio que o diz, repete, confirma e sublinha, em grande parte das páginas do seu diário, uma obra atravessada por diversos estados de espírito, da melancolia à raiva, da lucidez ao desespero. Neste exercício contra a amargura feito por “um verdadeiro raté”  que reconhecia: “Não me saio bem nos sentimentos normais” ou “Sou um homem que não sabe viver” (com itálicos e tudo).

Os registos fragmentários da obra (1935- 1950), onde os capítulos têm como nome números – os do ano em que foram escritos – à semelhança da sua existência, que nunca foi plena, dão voz à sua inadequação ao ofício de viver. Entre desejos e frustrações, Pavese passa de considerações filosóficas e estéticas aos lamentos amorosos, de um dia (que por vezes é apenas uma linha) para o outro. Entre constipações e o fumo do cachimbo, noites sentado diante do espelho para fazer companhia a si próprio e longas semanas de silêncio, escreve sobre o ofício da poesia, a eficácia educativa da dor, Baudelaire, Dostoievski, Kierkegaard e Shakespeare, a arte moderna e a tragédia grega, a cidade (Turim industrial) e o campo (um Piemonte agrícola), as mulheres no abstracto, T. no concreto e histórias que ficaram por acontecer. Ao longo destes 15 anos, ocorreram acontecimentos terríveis para a humanidade, como a segunda grande Guerra Mundial, as bombas atómicas de Hiroshima e Nagazaki ou a Guerra Civil Espanhola, mas a grande história é ignorada para dar protagonismo à pequena história: o universo íntimo e pessoal de um humano em permanente guerra contra si próprio. Observador crítico do mundo e juíz feroz de si próprio e das mulheres (já lá vamos), a partir de certa altura, além do eu confessional começa a escrever na segunda pessoa do singular. Tu. Como se estivesse a ver-se de fora, como Outro, interpelando-se com “Esqueces-te sempre de que nasceste escravo”. Ou: É preciso confessar que pensaste e escreveste muitas banalidades no teu diariozito, nestes meses”.

A sua escrita dolorosa e luminosa, numa introspecção levada ao extremo, além da sua sinceridade por vezes brutal expressa uma certa nobreza do coração. Pavese apenas soube ser feliz triste. Talvez tivesse o vício da tristeza. “O que conta para um artista não é a experiência, é a experiência interior”. “Se não tivesse sofrido, não teria escrito estas belas frases”, reconhece. Não é difícl concluirmos: a felicidade pode ser estéril para a arte, embora a infelicidade possa ser fatal para a vida.

“Todo o sofrimento que não seja ao mesmo tempo conhecimento é inútil” – diz-nos Pavese. Aprender significa aprender a sofrer e não há melhor mestre do que as mulheres. Ou a vida. Quando peguei no livro para começar este Está Escrito, abri uma página ao acaso e o meu olhar caiu sobre esta frase: “O amor é a mais barata das religiões”. Entre alguns pensamentos misóginos, criticando “as dissonâncias românticas” por si próprio cometidas, Pavese trata as mulheres de forma extremada e elas passam de deusas inacessíveis – “é um facto que ela para ti é um artigo de luxo” – a prostitutas: “Em cada cem, 99 são putas”. Estas teorias confirmam uma tese sua: “Há escravos e senhores, não há iguais”. E ele incluia-se a si próprio na primeira categoria. Assim se sentia ele em relação às mulheres, que desfilam por este livro como numa galeria de fantasmas: a Bailarina, T. (a morena matemática Tina Pizzardo), Gôgnin e Ela, com direito a caixa alta, quem sabe a última grande paixão do escritor, a bela e loura actriz americana Constance Dowling. Eterno adolescente, Pavese escolhia mulheres decididas e desejadas por todos, que o faziam sofrer pelo seu amor inatingível. Nunca conseguiu ter o amor delas, daí o sentimento de inferioridade em relação às mulheres, que a sua virilidade permanentemente humilhada classifica de calculistas, interesseiras, despidas de sentimentos. “As mulheres são sempre homens de acção”, escreve Pavese. Ou pior ainda: “As mulheres são um povo inimigo, como o alemão”.

A morte, tal como as mulheres, sempre foi um lugar atraente para Pavese – “a morte é o repouso, mas a ideia de morte não nos deixa repousar” – e aparentemente, a única solução para a sua vida. O próprio diário tornara-se aos poucos a crónica de um suicídio anunciado. A partir de 1946, admite que o poderá cometer. Em 18 de Agosto de 1950 escreveu pela última vez: “Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais”. No dia anterior escrevera: os suicidas são homicidas tímidos. A 27 de Agosto o suicídio ditou, de forma brutal, a palavra fim. Apesar de haver várias referências a armas de fogo ao longo do diário, escolheu uma morte mais delicada e feminina, sem sangue nem violência. Graças a um frasco de soníferos adormeceu “o seu cancro secreto” que lhe minava a alma no silêncio anónimo de um quarto de hotel. Ao seu lado e no regresso às origens, encontrava-se uma edição da sua obra Diálogos com Leucó, sobre a mitologia grega. Muitas páginas antes, tinha escrito no seu diário: “Na inquietação e no esforço de escrever, o que nos ampara é a certeza de que na página fica qualquer coisa por dizer”. Nunca saberemos o que Pavese escritor e o que Pavese personagem calaram. Uma obra de arte encerra sempre algo de misterioso para o próprio artista. Talvez Pavese tenha sido um adulto cego por um excesso de lucidez, que acabou por responder infantilmente à vida, enquanto criava uma grande obra. Há uma frase do seu diário que me persegue, há anos: “Há uma coisa mais triste do que envelhecer: permanecer criança”. E haverá frase mais triste do que esta?

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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23 respostas a O mais difícil dos ofícios

  1. luis Lopes diz:

    Não pode ser tão ” Dura ” ! .

  2. O que este homem e este livro cheiram a solidão!

  3. Maria João,
    Dizer que gostei é pecar por omissão. O blogue ganhava muito com a sua assiduidade. Gostei mesmo muito. Com emoção e tudo.

    • Maria João Freitas diz:

      Mr. Norton,
      Muito obrigada pelas suas palavras (exageradas, claro está!). O mérito do texto não é meu, mas sim do pretexto: o Pavese, que escavou como poucos na tristeza, até nos mostrar os seus ossos. E sim, com elogios destes, fiquei com vontade de me tornar mais assídua.

  4. riVta diz:

    nascer, amadurecer, morrer …
    não é fácil saltar capítulos.
    gostei muito

  5. Gostei muito, Maria João. Às vezes, penso que os escritores sofrem disso, quero dizer, é o traço distintivo, a coabitação da infantilidade com a lucidez.

  6. Maria João Freitas diz:

    Mademoiselle de Vasconcellos,
    São provavelmente duas formas de luz de difícil convívio, daí o sofrimento. Bem visto.

  7. Diogo Leote diz:

    Maria João, pouco ou nada conhecia do Pavese, e tudo ou quase quero agora saber dele. Mérito do teu excelente texto.

    • Diogo,
      O Pavese é um continente por explorar – até para ele próprio o foi.
      Além deste O Ofício de Viver, da Relógio D’Água (é capaz de estar esgotado), recomendo-te Férias de Agosto, editado pela Quasi e A Praia, pela Ulisseia.

  8. Filipe João diz:

    O mérito do texto é todo seu. Agradeço-lhe os últimos minutos da minha jornada.

  9. nanovp diz:

    “a felicidade pode ser estéril para a arte, embora a infelicidade pode ser fatal para a vida”… Está quase tudo dito Maria João : quanto mundo se descobre nesse espaço intermédio e impossivel, entre a felicidade a arte e a vida….

  10. Comprei há uns anos na feira do livro. A partir dai nunca mais saiu da minha mesa de cabeceira!
    Gostei muito do texto!
    beijinhos e até breve vizinha 🙂

    • Ana Rita,
      A mesa de cabeceira parece-me um excelente sítio para o Ofício de Viver morar. Funciona como um lembrete para a nossa condição de viventes, ao acordar e ao deitar. E não é que logo hoje nos encontrámos no nosso bairro, nós que também somos vizinhas nas leituras tristes?! Beijos.

  11. vgrilo diz:

    Maria João, conhecendo bem aquilo que resta da Turim industrial e do Piemonte agrícola, fui transportado pelo seu texto para os seus espessos nevoeiros e para a solidão de alma que podem provocar. A tristeza de permanecer criança ficará agora para sempre comigo. Gostei tanto de conhecer Pavese e de lêr o seu texto. Obrigado.

  12. A. diz:

    “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.”

  13. A. diz:

    “A palavra é o dejeto do pensamento. Cintila. Cada livro é sangue, é pus, é excremento, é coração retalhado, é nervos fragmentados, é choque elétrico, é sangue coagulado escorrendo como lava fervendo pela montanha abaixo.”

    Parabéns! Belo texto!

    😉

  14. Peço desculpa pelo pontapé na porta e pelo desfasamento temporal. Passo às explicações: por teias de indizíveis e irrelevantes fios arribei, há um par de dias, ao «escrever é triste». Acabei agora de ler o seu Pavese e de rever o Câmara Leme… Se tiver pachora dê um salto a este post

    (https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=3067636219421203495#editor/target=post;postID=7724211107764624962;onPublishedMenu=posts;onClosedMenu=posts;postNum=1;src=postname)

    e entenderá a ousadia.

    Não me estico e prometo compôr a porta… ainda estou a tratar do pé!

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