Pode Ser

Será apenas um delírio de querer desaparecer, ou a memória de estradas lisas, curvilíneas, que cosiam a montanha contra o verde maciço? Deslizava pela paisagem como se voasse, a cheirar o fumo das fogueiras que tinham aquecido a noite, agora que a água fria e limpa atravessa as gargantas da montanha imóvel, de pedra. Será apenas o desejo de fugir, de me esconder do tempo, por entre os grãos de areia espessa do enorme areal que termina no horizonte azul, pesado, do oceano?

Ou a vontade de cortar o nevoeiro espesso da vida que me deixa cego, imune às lágrimas de quem chora, aqui mesmo ao lado? No sentir o ar fresco da noite escura, ao som do mocho que grita, do vento que dança nos pinheiros altos a tocar o céu, quando o sol nasce sobre o terraço descoberto, onde te despes só para ele. Pode ser apenas a ilusão da perfeição imaginada do mundo, que vislumbras por escassos segundos, quando o vale seco se abre em frente dos teus olhos ingénuos, e percebes o peso de todo o amor que cortou montanhas e cuspiu riachos de líquido volumoso, denso, como a dor na luz que cai.

Talvez seja apenas a vontade de gritar mais alto, de dançar sobre a chuva quente de verão, agarrado ao teu corpo molhado, no cheiro único dos teus cabelos que atravessava terras e cidades.

Ou a certeza de aqui morro, desfaleço, no meio da noite sem som, onde os gatos se escondem com medo do escuro. Saudoso porventura do corpo esguio que me conduziu pela cidade desconhecida como se fosse minha, dos risos genuínos  que concedias perdida na multidão de anjos.

Pode ser o horror da generalização, da massificação que somos já.

Ou a transformação de tudo numa auto-estrada plastificada existencialista,  onde  passeamos, eu confuso e perdido, por entre castelos de cartas que se desmoronam quando ainda ontem albergavam príncipes e Reis, belezas e amores que eram afinal caveiras e ódios escondidos por entre unhas limadas e gravatas impecavelmente engomadas.

Será por mérito da vontade de continuar a caminhar, agora que o caminho se torna mais estreito, mas não menos misterioso? Será pela luz que se delineia por entre todas as nossas ambições, a sensação de que ali ao fundo, depois da curva apertada, olharei os troncos das árvores, as colmeias, os ninhos de melros sobre a vinha verde?

Pode ser. Pode ser por tudo isso.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a Pode Ser

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai de mim que tanto me apaixona a prosa poética! Esta do Bernardo, em particular. Quem neste género de escrita é fabuloso mestre nosso é o Jacinto de Magalhães no livro “A Água e o Silêncio” (subjetividade descarada).

  2. Pode ser que chova este Verão!

  3. Há sempre a noite. E sempre a manhã, mesmo se para chegar demora uma noite inteira.

  4. nanovp diz:

    E podemos sempre fechar os olhos de noite a imaginar a manhã….

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