Sem sexo ou não, eis a questão

CAPA ROTH 1

A conversão dos judeus“, in Goodbye Columbus

O que faz um miúdo em cima de um telhado? Poderia estar a ver as estrelas, a pensar na vida. Mas este é o telhado da escola, o miúdo parece querer atirar-se. Porque é que o autor o coloca nesta situação? Fosse outro o escritor, e poderíamos estar a assistir a uma crise existencial, a uma questão dolorosa de paixão adolescente. 

Mas é Philip Roth. O provocador, o desestabilizador, o perverso Roth. E esta não é a cena inicial do conto – é a consequência do diálogo inaugural.  No início era o Verbo, e o aluno discute com o rabino. Mas por que é que Maria não pode ter concebido Jesus sem sexo? Porquê? (Cito de cor, apenas tento manter o sentido do Ozzie perguntador) .

E agora aqui temos a criança em cima do telhado. A escola já se apercebeu e está toda ali à volta a olhar para cima, os bombeiros já chegaram, o rabino também, o povo todo, imploram que desça. Mas a criança no telhado parece uma reformulação do “Deixai vir a mim as criancinhas”. Jesus ou o Diabo no telhado? Não, as criancinhas no telhado: deixai vir a mim os adultos. Deixai vir a mim o rabino. Responde, rabino, Deus, que criou o céu e a terra e a luz em seis dias, Deus pode fazer tudo ou não?

Como gosto de contos, e tanto destas narrativas curtas e pontiagudas, meu Deus. Se desde tenra idade me afastei das capas protectoras de qualquer igreja próxima, mergulho cheia de fé nos enredos do judeu Roth. O que me ri com este conto. Como ele se ri dos dogmas. Até parece que se vê o torcido sorriso do autor enquanto escreve. Como fazer um judeu renunciar ao que está escrito? Melhor, como fazer um judeu morder-se com o próprio veneno? Como fazer um judeu  curvar-se perante a imbativel lógica infantil? Como combater a palavra com a própria palavra? Está escrito na Tora, mas será mesmo assim? Se o ponto de partida de um texto sagrado abre todas as possibilidades, como é que o próprio texto pode limitar ou excluir hipóteses? Afinal, Deus pode tudo ou não?

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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6 respostas a Sem sexo ou não, eis a questão

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Pergunta intrincada cujas respostas sempre foram e serão subjetivas. Na leitura do texto, sorri com gosto pela escolha, simplicidade e boa escrita.

  2. Teresa, bem trazido, esse arranque do Roth é um prodígio de irreverência e graça.

  3. riVta diz:

    «Afi­nal, Deus pode tudo ou não?»
    and U can?

  4. Adoro contos. E Roth. Em Portugal não se pode publicar contos, disseram-me. Ninguém os lê. Se calhar porque a maior parte dos escritores que os escrevem e publicam, escrevem umas boas merdas.

  5. nanovp diz:

    Estou agora a ler a autobiografia do homem…Goodbye Colombus, lido na América judia do “East Coast “em meados dos oitentas, deixou marcas…o meu favorito continua a ser “American Pastoral”, um livro que, como todos os clássicos, parece ter sido escrito hoje…

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