Tive uma Sophia que foi só minha

Mar XIV

Mar XIV

Cada um tem a sua Sophia. A minha, quando a conheci, nem sabia que se chamava ou haveria de chamar assim. Tinha a forma de um sofá puído onde cabíamos, muito apertados, eu, a minha irmã, e a minha mãe, ao centro de uma galáxia só nossa. Uns dedos afilados, um ar grave, uma voz serena e bem colocada. E depois era ver-nos num mergulhar sereno naquele universo de mil natais, sapatos bem engraxados, presentes misteriosos de fitas acetinadas, casas enormes onde o mundo dos adultos se ouvia, baixinho, lá em baixo. Misterioso e inacessível. Florestas imensas de gente minúscula. Flores que falavam, estátuas que bailavam por entre a brisa fresca de uma noite de verão. O pai que cavalgou meio mundo, a esperança que nunca morria no coração da mãe. A menina que se divertia nas poças de um mar tão vivo de cores que já não há. O rapaz que afinal era Cristo numa idade em que eu ainda não podia percebê-lo. Não me digam que podem imaginar felicidade maior.

Da minha infância guardo, pareço um disco riscado, a lembrança de um tempo absurdamente feliz. Povoado, vão chamar-me tontinho, pelas mãos mais bonitas que conheci (minto porque conheço outras mas essa é outra história que um dia, com mais vagar, hei de contar). As mãos bonacheironas do meu avô herói faziam de mim, no instante simultaneamente breve e eterno em que envolviam as minhas, o senhor único de todos os afetos do Mundo. As mãos sempre quentes do meu pai eram o navio seguro que me levou a acostar a todos os museus de uma Lisboa que, à época, era quase tudo.

Mas foram as mãos sempre frescas da minha mãe que me abriram as portas do jardim de anémonas de Sophia. Um mar cá muito meu por onde, anos mais tarde, haveria de vaguear, horizontal, o meu rapaz de veludo. Mas confundo-me e confundo-os. Era na ponta dos seus dedos que se sentava Oriana, era na palma da sua mão branca que brilhava o norte do meu mundo, feito árvore de natal. Eram suas as mãos de Sophia ou eram de Sophia as mãos dela. Tanto faz. Tive uma Sophia que foi só minha.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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3 respostas a Tive uma Sophia que foi só minha

  1. Fiquei a imaginar a sua Sophia mais perto do azul do mar que parece céu ( ou será seu) …

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Povoou-me de imagens felizes que da minha infância, também “absurdamente feliz”, entesourei.

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