Todas as meninas do mundo

A síndrome de Stendhal existe e eu sou prova. Esperei que as portas do Prado se abrissem e corri salas adentro até parar em frente a Las meninas. Depois chorei, tira-teimas da sintomatologia, eu que tenho uma lágrima tão difícil que até me assusta se ocorre.

meninas

Há obras que são inesgotáveis. Ou porque atingiram uma perfeição exigente que pede um tributo constante e uma revisitação criativa permanente ou apenas porque apetece ficar por lá como quem repete uma oração.
Eu transporto desde sempre um fascínio pelas múltiplas formas de que a intertextualidade se pode revestir. Seeja pela palavra, pela forma, pela cor ou pelo som. Creio até que pela omissão, que o que é bom é também como o pecado.

Há uns tempos encontrei no blogue de José Vilhena Moreira uma brincadeira feita sobre Las Meninas.  O ponto de partida é esta tela de Sophie Matisse com o mesmo título:

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Desapareceram todos: a infanta Margarida, as meninas, María Agustina Sarmiento e Isabel Nolasco, Maríbárbola, a anã, o bobo Pertusito, doña Marcella de Ulloa, a camareira, o pintor, os reis no espelho do fundo, todos. O quadro é assim como se Hammershǿi tivesse passado pela corte de Filipe IV e em vez do branco e dos cinzentos nórdicos tivesse adoptado uma paleta seiscentista e quente.

jmv faz um exercício curioso: volta a encher o quadro, desta vez plasmando sobre o rosto das figuras centrais, o rosto de uma das aias. E resulta daí A estranha multiplicação de doña María Agustina:

A multiplicação de Doña María Agustina

Em seguida, a brincadeira vai mais longe e é o rosto de Maribárbola que se repete sobre os outros. Chama-se A vingança. É uma gracinha, parece até que Paula Rego foi pintar as saias de anquinhas da corte espanhola.

diegorodriguezdesilvayvelazquez_lasmeninas-detail1 - Cópia
Las Meninas nunca mais sossegaram desde que Velásquez as pintou. Só Picasso tem umas 58 versões do quadro. Encontrei neste sítio muitas outras meninas numa interminável espiral e não estarão lá todas, pois que falta Valdés, Bob Kassel, Gerard Racinam, Howard Podeswa e outros.
Até a marca El Corte Inglés tem uma publicidade de tecidos muito bem pensada:

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Perguntam-me às vezes se me deslumbro com a originalidade. Claro. Felizmente, deslumbro-me com muitas coisas. Mas a viagem entre quadros, histórias, épocas, cores, texturas e pessoas é para mim uma forma de distribuir o passado como se ele fora uma grande herança que, bem cuidada, pode ser lastro de uma forma de  futuro que me agrada.
E elas continuam lá na parede do Prado. E já houve quem escrevesse que, à noite quando a segurança adormece, saem do quadro e, cautelosamente, pelas escadas do palácio encaminham-se para o metro que as conduz à movida madrileña. É no livro La infanta baila,  de Manuel Hidalgo.

E bailemos nós, agora.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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8 respostas a Todas as meninas do mundo

  1. Ok, era para escrever um grande smile 🙂

  2. Interessantíssima análise, Ivone.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Ó Ivone! Isto é lá coisa que se faça? Anda uma Triste a investigar e sai-me com uma pérola destas!

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