Traições: um contributo para o próximo romance do Henrique

 

Gosto de correr na praia, o pé esquerdo no fino lençol de água da maré vazia, o pé direito na areia branca. Fiz os quilómetros que vão de Altura a Manta Rota e já vinha de volta, pés trocados, o direito agora molhado, o esquerdo quase seco. E como quem vem da festa, voltava a resignado passo, que o físico, dado o que tinha a dar, não dá para mais. Ele e ela caminhavam na minha direcção. A voz dela, entre a água e a areia, a sair de um bikini de não sei se te petisque, não sei se te marisque, foi peremptória: “Eu perdoo-lhe tudo, traições é que nunca.” E ele, um físico dez vezes melhor do que o meu, feito confidente (um matulão daqueles feito confidente!), a abanar a cabeçorra para baixo e para cima, sabe-se lá com que secreta e engolida agenda.

Não lhe perdoa traições, diz ela. Mas então perdoa-lhe o quê? Ter bebido três shots a mais numa noite maluca? Ter esmifrado um bagulho de massa a comprar dez camisolas do SLB que ofereceu a dez amigos? 

Nem a ligeira brisa impede que o sol, altivo, esturrique tudo à volta. As ondas que levaram o mar para tão longe, começam agora a devolvê-lo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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14 respostas a Traições: um contributo para o próximo romance do Henrique

  1. «Gosto de cor­rer na praia, o pé esquerdo no fino len­çol de água da maré vazia, o pé direito na areia branca.»
    – Quer-se d’zer que vem então de lá para cá!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Nem mais, Rita!

  3. Perdoar o quê? Nenhum perdão anula retroactivamente o que quer que seja. Nem nenhuma falta de perdão anula. Os actos permanecem, ou vivemos com eles ou não. O arrependimento é uma coisa íntima entre o eu e o eu. Não há cá perdões, há amor ou não.

  4. Ah, Manel eu que não sou pessoa de praia farto-me de gostar destes seus textos marinhos. Já no ano passado escreveu um todo tipo o velho calção de banho que era bem bonito. E olhe lá, um homem encorpado não pode servir de confidente? Até tem mais ombro onde encostar.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    O Verão, mais onda, menos onda, tudo autoriza. Desde que o narrador não saia de pé…

  6. Os cristãos aos leões, os traidores aos turcos:

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Perdoar? Quem se vangloria de o fazer deslaça tolerância do bom senso. Nem os deuses do Olimpo o faziam.

  8. nanovp diz:

    Os matulões são os mais perdoados Manuel….

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