Visão, tenha duas: armar a tenda

 

visao hoje

A tenda é uma extensão do corpo juvenil. Há qualquer coisa de patético nos velhos hippies de 50 e 60 anos que viajam de calhambeque e vão montar a tenda em Porto Covo. A tenda pede estrogénio, progesterona e testosterona a roçar valores que apontem para o céu, nem que seja para sustentar de pé uma estrutura que, é bom de ver, tem as suas vulnerabilidades.

A tenda, quando se monta, quer-se lisinha, tão lisinha como a pele dos que nela mergulham os sonhos abstrusos de conquistar o mundo ou de mudar o mundo. São, aliás, coisas bem diferentes, ainda que em muitas tendas se juntem, em apertadinha unidade, pessoas que depois se hão-de violentamente rejeitar ao descobrirem que um quer muito mudar o mundo que o outro quer em absoluto conquistar.

Se bem me lembro, despedi-me da tenda tinha para aí a idade da menina da capa da Visão que encosta os seus 25 anos, o decote discreto e a boa perna à paisagem bucólica. Tinha dormido nelas, nessas tendas sonhadoras, no Mussulo, na Floresta da Ilha, do outro lado da baía de Luanda, numa praia perto do Morro dos Veados, no algarvio Vau. Eram tendas com o conforto que o corpo juvenil encontra em tudo o que não seja dormir em casa: quem é que quer o telhado da casa paterna, quando tudo o que nos separa da fecunda humidade da terra e das leves nuvens do céu é um chão em polietileno e um duplo tecto em poliéster revestido a PU?

Já não me lembro se, nesses anos longínquos, as minhas tendas também vinham com varetas de aço galvanizado ou com costuras absolutamente estanques garantidas pelas bandas termocoladas. Acho que não, que vinham até sem instruções. E, se as traziam, logo as ignorávamos. Levantava-as, às nossas tendas, um túnel de vento. Se chovia, uma obstinada gota de água vinha cair ao centro do habitáculo obrigando um tipo a dormir em arco e chegámos a montar a tenda em cima de uma cobra que a difícil digestão mergulhara em sono profundo. Those were the days

A tenda tinha um ou dois livros. Um Kerouac, ou o Ferlinghetti de “Amor deita-te comigo / Deita-te comigo / Sob o cipreste / Na relva macia / Onde o vento se deita / Onde o vento morre…” E pobre da tenda que não tivesse uma guitarra eriçada contra o General Westmoreland. Depois, secos na garganta uivos e protestos, no céu a pobre Lua desorientada, as wee wee hours emprestavam à guitarra uma Michelle ma belle, jorravam lágrimas de tanta cerveja e hercúlea angústia juvenil. Ouviam-se os primeiros pássaros da manhã.

Está ali a tenda, um raio de sol candengue mede a latifundiária maré vazia, a fresca areia molhada calça-nos a terna e tenra carne dos pés. Está ali a tenda e à sua frente a manhã seguinte, ramo de trémula e pura luz. A tenda fica lá atrás, caminhamos devagar e sabemos que somos as asas da ilusão: ninguém acreditou tanto que poderia ter na palma da mão o coração do mundo. Foram muitos erros, ignorância, ilusão. Pouco ou nada importam, perdidos que estão no cósmico ferro-velho da história humana.

Mas a crença, meu Deus! O que não daria para voltar a ter na palma de mão o fresco grão dessa homérica, oceânica e eufórica crença. Levanta-se alta a luz do dia, pela fímbria do mar nos vamos; lá ao longe, quase só um pequenino e amarrotado pontinho, uma adormecida tenda.

                                                                             ***

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, a Eugé­nia e eu, Tris­tes, nesta tenda que a capa da Visão esta semana nos montou. Ela arma a tenda que lhe vem à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a tenda da mesma capa. Será que armam coi­sas dife­ren­tes? Tragam uma tenda também. A ver se fazemos um acampamento.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Visão, tenha duas: armar a tenda

  1. É verdade, pela fímbria do mar nos vamos – tão bonito – e ao longe as tendas adormecidas. Há beleza nisto mesmo quando é triste como a vida curta.

  2. nanovp diz:

    Que hino ao acampamento Manuel….assim até me convences a mim, já os outros tristes não sei… A nossa Rita talvez, ou o Dr. Leote ???

  3. riVta diz:

    fez-me lembrar o deserto e o frio que eu rapei à noite numa tenda, tinha um furo mesmo por cima da minha cabeça…brrrrr

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Afastando-me do deleite da tenda que montou, sempre lhe digo que a minha emotividade quando o tempero do pragmatismo adormece arma-me cada tenda!

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