Visão, tenha duas: bate uma alma na outra

visao, a de hoje

Kizomba? Há muito melhor do que o kizomba. Mas como é que se explica isto a uma moça que não seja lá da banda? Não é com a foto da capa da Visão, de certeza.

Começa já, minha, que eu, se é para dançar, danço merengue. Mal, é certo, mas com alma, se alma é o que estás a pensar.

Onde o kizomba é motor de combustão a quatro tempos, o merengue tem feitiço. Não vou dizer que passei a vida, as noites da vida, na rebita. A maior parte das minhas “farras” foram de slow, soul music e rock. Coisa desmaiada, de branco sentimental. Mas caluanda que sou, também ia à Ilha e fui ao Marítimo. E com esta coisa de estar a ficar velho, só tenho a dizer que rebita, merengue e masemba pedem aristocracia de pernas, braços e tronco. Chegas ali e danças, minha. E, dançando, um corpo e outro corpo formam, juntos, uma dicanza, um reco-reco, o melhor reco-reco que era o do cota Fontinhas. Os corpos, não é bem roçarem-se, raspam um no outro. A fricção põe na alma um som vibrante, erecto.

Raspar, às vezes, é escasso. O entendimento pleno de dois corpos pede a fusão que só o choque proporciona. A masemba é esse choque, um choque de almas, desde que alma seja para ti, minha, o que de alma eu estou a pensar. Está ali a dama em requebros e o cavalheiro – posso ser eu, sim – enlaça a dama pela cintura e atrai da dama o fim do tronco, contra o que no tronco do cavalheiro é o fim e é o princípio. É a semba, a umbigada, se tiveres, claro, uma generosa concepção de umbigo. Diria, cândido, que bate a minha alma na tua.

E vou lá eu, agora, dançar kizomba?!

                                                                                  ***

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, numa alta farra, a Eugé­nia e eu, a dançar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ela dançou o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem dançam para a mesma capa. Será que dançam coi­sas dife­ren­tes? Dancem também.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Visão, tenha duas: bate uma alma na outra

  1. Que texto malandro! Ritmo malandro é dança, e esta concepção anímica é toda uma filosofia…

  2. é ‘caldo’ do princípio ao fim …

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Merengue somente na culinária. É o que disse à «prima» Eugénia: _ falta-me África no corpo.

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