Visita guiada à bela cintura da Sra D. Ernestina

Se eu tivesse bandeiras de porta também deixava que me as pintassem.  Como estas, está bem de ver. Lede e tende calma , que eu já ponho isto tudo por ordem. Não disse, quando mostrei a velha bola dos anos 40, que voltávamos ao Museu  Municipal Carlos Reis em Torres Novas? Pois estamos de volta para ver as bandeiras de porta que aí mais abaixo aparecem plasmadas numa cortesia do MMCR para o Escrever é Triste. Eu já agradeci, a Tia não se incomode.  É entrar, virar à esquerda, ir em frente sem ligar às escadas, depois curva acentuada à direita e lá estão elas. Uma beleza. A primeira vez que as vi pensei ah, Columbano, mas o que é que está aqui Columbano a fazer no meio da sala de Carlos Reis? Não era Columbano mas isto anda tudo ligado.

Carlos Reis nasceu em Torres Novas no ano que Manet  levou  Le déjeuner sur l’herbe ao Salon des Refusés, 1863, e entra em Lisboa na Escola de Belas-Artes em 81, no ano da formação do Grupo do Leão. Eu não disse? Mas antes, assentem-se aqui umas coisas mais ou menos teóricas. E não venham daí as almas da História da Arte a dizer que eu não percebo não disto, que me deixe estar quieta entre gregos, latinos e seus arredores. Isto é só uma pincelada, estamos entendidos? Clemência comigo. Pois então nosso pintor é o primeiro daquilo a que se convencionou chamar a segunda geração de naturalistas. Discípulo de Silva Porto, foi como o mestre um fervoroso defensor da prática naturalista em pintura o que levou a um longo ciclo estilístico que desemboca no fenómeno tardo-naturalista  e coexiste com os movimentos de vanguarda do séc. XX. A colecção que está no MMCR percorre três linhas de força. O retrato, os costumes, a paisagem. A paisagem mais pitoresca do que pictural como muito bem disse José Augusto França.  As bandeiras de porta, que são quatro, abrem o núcleo expositivo. E são diferentes do resto da colecção, ainda que nelas exista já o embrião da paleta cromática de Carlos Reis. Vamos a duas, às que prefiro. As outras duas são paisagens e eu gosto mais de pessoas de que de paisagens.

Carlos Reis, oléo s/ madeira. 137,5X37,3. 1886. MMCR nº 3265.Torres Novas

Carlos Reis, oléo s/ madeira. 137,5X37,3. 1886. MMCR nº 3265.Torres Novas

Isto tudo se sabe e por isso eu conto. Reis, apesar do circuito Lisboa Paris, regressava com frequência a Torres Novas onde mantinha as amizades de infância, sobretudo a que o ligava e ligaria toda a vida a Gustavo Pinto Lopes, fundador da biblioteca que hoje leva o seu nome. Pois nesta bandeira, Gustavo Pinto Lopes pede a mão da sra D. Ernestina sob o olhar fabuloso da senhora sua futura sogra. Ele apruma-se de elegância, a sra D. Ernestina encolhe-se de timidez. E onde foi ele pintar o amigo em tão delicado propósito? Na bandeira de uma das portas da sala de jantar do Dr Carlos Azevedo Mendes. Conservador do Registo Predial, provedor da Misericórdia, autarca, figura marcante em Torres Novas, não vem agora ao caso. Vêm sim os herdeiros que doaram ao MMCR todo o espólio do pai, os quadros de Reis, as bandeiras das portas e não fizeram eles senão bem. Numa das outras vemos a festa de noivado.

Carlos Reis, oléo s/ madeira. 110,5X50,5. MMCR nº 3268. Torres Novas

Carlos Reis, oléo s/ madeira. 110,5X50,5. 1886. MMCR nº 3268. Torres Novas

A Sra D. Ernestina, de bela cintura no vestido de longa cauda azul, senta-se agora ao piano. Suspeita-se que o cantor seja o próprio Carlos Reis. Um grupo mais próximo rodeia a pianista e o cantor, em fundo o friso das senhoras tagarela por detrás do leque vermelho no ruge-ruge dos vestidos de seda. E há uma pele de leopardo no chão, uma consola com o seu espelho e um cache-pot que reflecte no vidrado os brilhos da festa sobre a mesinha alta.

Um encanto, digo eu. São obras de juventude, em 1886 Reis tem 23 anos e participou na exposição anual do Grupo do Leão. Claro que faz lembrar Columbano. Mas o que mais me fascina é este caçar do momento à pincelada solta. Assim como quem tira uma fotografia com o telemóvel. E vai para a bandeira de uma porta porque não há Facebook.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Visita guiada à bela cintura da Sra D. Ernestina

  1. Que bem trazido o Carlos Reis, Ivone.Fiquei com vontade de ter uma bandeira numa porta. Ainda se fazem destas coisas?

    • Diogo, isso terás de perguntar ao Diogo ou à Rita. A bandeira da porta fica por cima da porta e creio que será necessário projectá-la aquando da construção. Se sei se podem inseri-la depois. Se tiveres bandeiras, depois é só pedires que alguém as pinte.

  2. Joaquim diz:

    Porque será que lhe chamam “bandeiras”?

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