As Benevolentes de Littell

Les_bienveillantes

“Gosto de Jazz e de miúdas com franjinha e saias pelo joelho. Jogo à bola bastante bem, odeio a matemática e acho o nosso líder um tipo demasiado excitado para o meu gosto. Para dizer a verdade consegue ser mais interessante que os comunistas e os judeus, de quem sei muito pouco mas a quem os jornais não fazem grandes elogios. O meu pai morreu no ano em que nasci, vivo sozinho com a minha mãe mas os fins-de-semana no campo com os meus amigos da organização de juventude lá do bairro são sempre uma grande festa, fazemos desporto à bruta e comemos bastante bem. E muito. De qualquer maneira bastante mais do que aquilo que se come lá em casa.

Cresço esperto, articulado e trabalhador. Formo-me em engenharia e entro para o partido sem grande dificuldade. Um Tio bem posicionado dá uma pequena ajuda. Uma conversa aqui, um almoço acolá. Sai-me um trabalho de organização. Gestão de projectos, urbano e cosmopolita. Há tanto para fazer nestes anos de expansão económica. Trabalho muito e duro. Caso com uma mulher sólida, fazemos um saudável par de filhos. Carro novo, apartamento com elevador. Sinto pela primeira vez um grande orgulho em mim mesmo. E também na minha pátria, que diabo. Que se lixe o Jazz.

Apoio a anexação dos territórios adjacentes ao meu país. Amor de cidadão ao que é seu de direito. Levaram-nos de novo a fazer a guerra com este apertar de cinto que nos impuseram. Uma guerra de que percebo vagamente os contornos mas que sei moralmente necessária. Creio. Sobretudo economicamente. Afinal se não nos expandimos podemos perder tudo. Para eles, para os comunistas e para os judeus, de quem continuo a saber, ou a querer saber, muito pouco – talvez porque decidi deixar de ler os jornais. São todos uns corruptos os jornalistas. Piores que os políticos.

Sou uma estrela em ascensão. Promoções sucessivas. Vivo agora para a máquina partidária. De Paris à Ucrânia. Viajo muito. Responsabilidades crescentes. Logística de apoio às grandes obras e sobretudo ao esforço de guerra. Acredito que tenho a obrigação de apoiar os meus compatriotas que combatem. Em alternativa aos jornais leio relatórios, actas, minutas. Tento estar a par das novas legislações que os ministérios produzem em catadupa. 

O Departamento que agora encabeço controla e gere fábricas de armamento e minas. São-me impostos agressivos objectivos de produtividade. Debato-me com uma força de trabalho que escasseia e vivo numa luta permanente por novas fontes de financiamento que me permitam consolidar e expandir o aparelho produtivo do país. São no entanto tempos felizes. Deixou de se falar da guerra. Comprei um gramofone. Em casa o meu filho gosta de tocar piano e a minha filha é a melhor da sua classe em matemática. Benza-a Deus.

Sou levado a visitar um campo de trabalho na Polónia. Foi como se levasse um soco no estomago mas a verdade é que deparei com uma oportunidade única. Sou um hábil negociador. Importo milhares de homens. Uma fonte inesgotável de mão-de-obra. Chegam bastante mal tratados mas ao fim de umas semanas recuperam. Sou promovido de novo. Trabalho agora com o ministro do armamento e da guerra. Sou o mais jovem oficial do gabinete. A cidade está linda, toda decorada, á espera do Natal. Gosto de voltar para casa à noite no meu sóbrio e elegante uniforme preto e ouvir o som dos tacões das minhas botas altas a ecoar pelas ruas desertas. A minha mulher diz que por vezes sou um grande vaidoso. Está frio. Diz-se que um inverno difícil está para chegar.

Faço o melhor que posso com o pouco que tenho. Continuam a chegar trabalhadores vindos dos campos de Leste mas é tudo cada vez mais difícil. Directivas, requerimentos, autorizações de transporte e leis raciais. Vivo numa prisão burocrática. As quotas alimentares para os meus trabalhadores foram de novo reduzidas. A taxa de mortalidade é agora confrangedora. Mais de um terço dos meus homens morre nos primeiros seis meses de trabalho ainda em fase de formação. Inspecciono e controlo mas não tenho tempo nem espaço de manobra para grandes mudanças. Sei que no Leste, depois dos grandes desastres militares do inverno, a nossa situação militar se inverteu. O regime está por isso sobre grande pressão mas eu, independentemente das ideias que começo a ter sobre tudo isto, continuo-lhe fiel. Apesar das dificuldades e da mortalidade, batemos todos os recordes de produção dos últimos seis meses. Minério, aço, aviões, tanques, canhões e munições. Nas ruas volta-se a falar da guerra. A cidade habituou-se agora aos bombardeamentos. Acreditamos ainda em nós mas creio que precisamos de um milagre. E depressa. Começo de novo a ler os jornais.

Os bombardeamentos levam-me a minha filha. Morri para sempre numa dor indescritível. Ficou-me oco o peito. Mando a minha mulher e o meu filho para o Sul. A notícia da morte em combate do meu melhor amigo dos tempos de juventude deixa-me indiferente. O Ministro reúne o staff e faz-nos saber que entrámos numa fase de guerra total. Vivo praticamente no ministério. O desafio é reconstruir aquilo que os bombardeamentos destroem e ao mesmo tempo aumentar as quotas de produção. Continuo a tentar fazer rodar a máquina que montei sabendo que o fim se aproxima. Sozinho à noite, começo a queimar e a apagar. Traços, pistas, cheiros. Passo horas a olhar-me ao espelho na vã tentativa de me reconhecer.

Sei que sou um monstro. Aqui sentado no escuro deste cinema, num velho documentário revejo-os a todos, a eles, aos outros monstros, ali no ecrã, sentados, de óculos-escuros e auscultadores tentando esconder o nervoso miúdo que os aflige. Nos intestinos de muitos, pequenas cápsulas azuis que apagarão para sempre a culpa e o remorso. Eu nem isso. Deixei tudo. A minha família perdida no meu país em escombros. O uniforme negro e as botas de cano alto num bosque de montanha. Aprendi uma nova língua e a minha tenho-a só para mim. E também para quando escrevo. Sim, escrevo tudo. Todos os dias. E quando acabo, queimo tudo e recomeço. Escrever assim é triste mas faz-me bem. Alivia a dor. A dor da minha falsa inocência.”

”’

Peço desculpa ao Jonathan Littell e às suas Benevolentes a quem apropriei o tema. Já aqui uma vez os tinha trazido. Agora, tenham lá paciência, mas perdi o pudor.

Mais aqui sobre este extraordinário e maldito livro.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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9 respostas a As Benevolentes de Littell

  1. Júlia diz:

    Caro Vasco, em parte, deve-me (sensivelmente) 25€ 🙂 Vai de encomendar este belo rapagão de 896 páginas!

    Muito obrigada pela sugestão.

    • vgrilo diz:

      Júlia, encomende, abra, mas entre devagarinho. A minha pequena fábula é soft-core, o livro é hard-core e para estômagos fortes. Mande-me a morada que lhe ofereço o livro…:)

      • Júlia diz:

        Não me tente, não me tente!

        (muito obrigada, é gentil, mas seria um tremendo abuso da minha parte. quanto aos conteúdos, acredite, há uma estranha atracção pelo género. sempre)

        abraço

  2. Querido Vasco,

    se este nosso escrever fosse uma linda tirania, e eu a tirana, claro, obrigava-o a 3000 caracteres duas vezes por semana para aumentar o rácio da minha felicidade pessoal. Fartei-me de gostar.

    • vgrilo diz:

      Querida Eugénia, sempre honrado em a ver extrair felicidade pessoal dos meus textos. Sobretudo se são de morte e destruição…

      6000 caracteres por semana? Vou pensar…

  3. Maria Inês Font Silva Fernandes diz:

    Querido Vasco, li “As benevolentes ” há já uns anos e fizeste-me reviver não só o que li ,mas tudo aquilo que podes eventualmente escrever ou reescrever livremente sem qualquer timidez. gosto muito de ler o meu dotado Vasco.

  4. llopes49 diz:

    Estou satisfeito ,fui provocado . Veremos o resultado.

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