As ressonâncias

 

Paul_Cézanne_Jeune_garçon_au_gilet_rouge_1888-89.jpg Julho 19, 2014 456 × 599

Paul Cézanne. Jeune garçon au gilet rouge. 1888-90. Óleo sobre tela. 456×599
Fondation et Collection Emil G. Bührle. Zurique

O meu tio Augusto ouvia melhor do que todas as outras pessoas da família. Não o sei por ter atestado mas porque ouvi contar. De ponto acrescentado como em tudo o que se nos conta e é o que vale. Não fosse essa espiral de acrescentos e todas as histórias seriam iguais porque não há entre as criaturas humanas grande diferença para além das dadas pelas circunstâncias. Sempre te digo que todas as pessoas se parecem e muito mais ainda se apenas fôssemos em cada história o escultor que liberta a pedra para deixar o essencial. E o essencial é sempre muito simples e repete-se. Isto dizia eu do meu tio Augusto e penso não haver quem possa dizer muito mais apesar de lhe terem sido contemporâneos. A minha avó insurgia-se a meia voz na cozinha contra os desaires domésticos e o meu avô vociferava na contabilidade que fazia todas as noites, sussurrando impropérios, mas ele ouvia sempre tudo como se morasse numa concha de ressonância. As minhas tias mais novas afastavam-se para um canto a listar defeitos e efeitos dos namorados mas não adiantava. Convém dizer que todo esse material sonoro não lhe servia de nada, não consta que servisse nem que lhe desse destino criativo. Não escrevia nem pintava e fugia da música como de um demónio. O meu tio Augusto não tinha amigos nem confidentes. Não lhe conheciam companhia além do miar dos gatos, do esvaziar dos caixotes do lixo pela madrugada alta, das conversas do andar de cima, dos gritos vindos de parte desconhecida, da resmalhada das árvores na praça, dos primeiros carros a sair de manhã, do bater das portas e das conversas, sempre as conversas dos outros que lhe impunham uma vida que não era a dele mas que o habitava feita assombração. O meu avô teve instintos de protector. Evitou-lhe com argumentos de poupança a saída de casa. Trabalhava numa secretaria e não havia queixas do seu trabalho meticuloso, as quadrículas da burocracia preenchidas com zelo. Ganhava pouco e nisso o meu avô se firmava para o manter por perto.

Ele chegava sempre a casa como que dorido apesar de evitar as ruas mais povoadas onde os ruídos eram lanças. Uma tarde abriu a janela do quarto e saltou. A Luisita da padaria em frente, lembras-te dela?, contou-me que durante muito tempo via para onde quer que olhasse aquela poça de sangue onde boiava a trouxa do corpo do meu tio Augusto. Depois o luto alivou em casa dos meus avós, rodeada dos mesmos ruídos entretanto abandonados mas que hão-de ter encontrado outro receptor. Não creio que alguma coisa mais possa ter mudado. Quando alguém se mata o mundo continua igual.

Há dias bebi um café com o meu pai e ele perguntou: quando o vento está de feição, há quem consiga ouvir o mar. Tu consegues? Não, pai, não ouço nada, respondi rapidamente.

Ia acrescentar: não se preocupe. Mas isso tê-lo-ia deixado de sobreaviso.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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6 respostas a As ressonâncias

  1. Barão Vermelho diz:

    Provavelmente esquizofrenia não diagnosticada

  2. vgrilo diz:

    Ivone, gostei do sobreaviso da não preocupação. E do resto também. Há tios assim em todas as famílias. Mais ou menos destrutivos, mas há sempre um.

  3. riVta diz:

    Ivone, corajosa. Abriu as hostilidades e logo de forma tão fatal!
    Terá sido o encarnado do colete?
    😀

  4. Marina Tadeu diz:

    Aqui não chegaram esses ruídos mas se chegassem não os temeria mas o que dissessem.

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