De ganzas, qawwalis e assassinos #1

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 Chennai, Agosto 1996

Um fio de fumo azulado. Ascendente, rente aos azulejos azul cueca desta casa banho. Sigo-lhe com o canto do olho o sinuoso percurso até lá cima, a uma pequena janela agarrada a um tecto leproso entretido a escamar a sua velha pele de cal. Lá fora, o breu húmido e pastoso da noite de Chennai impede o fumo de sair formando sobre as nossas cabeças um cumulus denso que me começa a tirar o ar. Aqui dentro deste espaço exíguo, para além de uma retrete e de um cheiro acre a suor que lentamente se mistura com o adocicado da marijuana, somos cinco. O Sandeep, dois dos seus inúmeros amigos de infância, eu, o único cara-pálida desta tropa de fumadores e ali, encostado à porta, ele, o Assassino. Chamo-lhe assim pelos seus olhos injectados de sangue, incendiados de chamas em torno a uma iris azul-brâmane, profunda e perturbadora. Recrutámo-nos uns aos outros lá em baixo, pelo meio dos afazeres da boda, que pelas salas e jardins da casa continua a decorrer coloridamente desde as seis em ponto desta manhã.

 Casou-se a Pria, uma prima do Sandeep que vive em Chicago e que aqui se veio casar com o Chris, seu colega de investigação do Illinois Institute of Technology. Com o casal veio também toda a emérita família do noivo, os Orville, que o Sandeep diz possuírem um sombrio passado criminoso e de activa colaboração com o Outfit, a mafia de Chicago que nos anos da prohibition controlava o crime da cidade. Agora aqui, vestidos em ridículas, quase carnavalescas, fantasias de gala à Indiana, parecem-me bastante inofensivos considerando por acréscimo as suas boas maneiras norte-americanas e o jet-leg que trazem nas olheiras.

 E esta manhã ao nascer do sol lá nos vimos todos no salão nobre da velha casa ancestral da família do Sandeep, ensonados e acalorados. No centro da sala, rodeados por uma centena de convivas, os noivos, que sentados oscilantes num baloiço de corda entremeado com flores e penas coloridas sorriam estremunhados. À sua volta, numa dança que àquela hora e com o que tinha bebido na véspera me fez vir uma náusea titânica, saltitava um Baba, completamente careca, vestido de açafrão e que com um rasgado sorriso de impostor lhes lançava sobre a cabeça, flores e águas santas e outros pozinhos coloridos tudo acompanhado por uma cítara roqueira em tons psicadélicos. Aparentemente o pretensiosismo americanizado da Pria levara-a a inovar aquilo não se inventa, e eu, em vez de ter o privilégio de assistir a uma séria e milenar tradição Urdu, tinha-me levantado àquela hora desumana para presenciar uma palhaçada pseudo-hippie na companhia daquelas duas famílias, a da Pria, atónita perante tanto sacrilégio, e a outra, a dos Orville de Chicago, os gangsters amigos do Capone, que, por entre alegres e sonoros wows, fotografavam com afano aquela patética cerimónia.

Voltando ao segundo andar e á casa de banho azul cueca, aqui amontoados fumamos agora o produto de uma transacção de algum risco feita a meio da tarde. Tínhamos saído da festa à socapa num BMW pescado de um rico parque automóvel vigiado por dois guardas fardados que dormiam refastelados debaixo de um jacarandá. A bordo deste, sem pudor e ao som dos Led Zepplin fomos ziguezagueando por entre a miséria e o caos do tráfico de Chennai até um bairro na periferia da cidade, onde um tipo de tronco nu, sentado sobre a corroída carcaça de um velho Ambassador e endossando um boné dos LA Dodgers, depois de uma longa e animada negociação em Tamil, lá nos representou uma meia onça de uma muito perfumada erva goesa. O Assassino, que vive e trabalha em Los Angeles como consultor para a indústria cinematográfica, é, tal como o Sandeep, de Bangalore, mas estudou engenharia aqui em Chennai e penso que seja por isso que ainda conhece este improvisado batedor dos Dodgers.

(Continua…)

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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