De ganzas, qawwalis e assassinos #3

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Winnipesaukee Lake, Setembro 2013

O vento é fraco. Fizemos um longo bordo a noroeste e numa bolina discreta, tentamos agora trazer para o pequeno cais de madeira de onde saímos duas horas antes, este velho e inchado Rhodes 19. Cheguei esta manhã de Tóquio. Fui apanhado pelo Sandeep e pelo Kurt no aeroporto de Logan numa pick-up cheia de six packs de Yuengling e de algumas libras de carne crua cortada para grelhar. Viemos aqui para a casa que o Sandeep tem no lago de Winnipesauke, no New Hampshire, comemorar a três, os vinte anos da nossa amizade. Temo-nos visto pouco nestes últimos anos. O Sandeep é hoje um emérito professor universitário e tem duas filhas lindíssimas. O Kurt está-se a divorciar e depois de muito resistir tornou-se também ele num monótono corporate warrior como eu. Falamos de tudo um pouco. Pergunto ao Kurt pelos filhos. Um deles tem o mesmo nome que o meu. Coincidências. Brindamos a filhos e filhas. Brindamos às mulheres, às nossas, às dos outros e àquelas que ainda não conhecemos. Pergunto ao Sandeep pela família. Pelo pai e a mãe que passam mais tempo na sua casa em Boston que na sua Bangalore natal. Pela avó, a Madhu, que recordo com afecto e que morreu em 2003 segundo o Sadeep praticamente translúcida. Gostava de ti sabes? E os teus primos? O Karthik? O que é feito do Karthik? Sandeep olha-me com os seus profundos olhos azuis. Duas goladas de Yuengling. Sinto que o seu gene indiano, propício ao mexerico, combate contra qualquer coisa de forte. De escuro como breu. Do Karthik ninguém fala sabes? Não. É coisa banida. Tema fechado. Erradicado de todas as conversas. Como se nunca tivesse existido. Em 2008 entrou em depressão. Problemas financeiros. Era um homem brilhante mas fraquinho de espírito. Tudo num sábado à noite. Em casa. Em Los Angeles. Com uma caçadeira. Primeiro matou um dos filhos, depois a mulher, a sogra e por fim os outros dois filhos. Por esta ordem. Deu por fim um tiro na cabeça. Tudo calculado e premeditado. Coisa banida. Tema fechado.

E eu vejo-o de novo, o Karthik, o meu amigo Assassino, ali ao meu lado, com os olhos injectados de sangue e o braço colado aos meus ombros. Sob o olhar cândido da Madhu. Numa trindade de almas em ressonância com um qawwali celestial capaz de levantar gente do chão, numa noite de Chennai, há exactamente dezassete anos atrás.

Mudamos de bordo. Abro mais uma cerveja. Acendo uma cigarrilha com os dedos que me tremem. Deve ser do frio que ao fim da tarde aqui se pôs neste New Hampshire quase outonal. Está-se a levantar o vento outra vez. Estamos a chegar.

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Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.

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2 respostas a De ganzas, qawwalis e assassinos #3

  1. nanovp diz:

    Fica a memória da levitação Vasco…

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