Dear Mrs. Bacall

lauren-bacallDear Mrs. Bacall, deixe-me dizer-lhe que todos fomos inocentes um dia. Mesmo Marlon Brando, apesar da biografia infame que o mete em mil camas. Melhor do que eu, a Lauren (permita que a trate assim, afinal já nos vimos em Tróia e em Lisboa) podia até recordar o caso da actriz que Oscar Levant imortalizou com a doçura desta frase: “Conheci Doris Day antes dela se tornar virgem.”

Hoje, não acreditamos em nada – e não vou dizer que foi, por isso, que a Lauren se foi embora, porque a Lauren, com o que viveu, tinha o direito de se ir embora quando muito bem entendesse. Não acreditamos em nada, dizia eu, e só temos olhos e um resto de crença para a desgraça: o que pode ser pior vai ser pior. Nisso acreditamos. Esquecemos que já tivemos natais de Menino Jesus e fulgurantes noites de amor à primeira vista. Como diria François Villon, poeta inteiro e meio assassino, “Mais où sont les neiges d’antan!” Traduzo: já não há inocência, nem mesmo em francês.

No cinema, juram-me, querida Senhora Bacall, que é pior. De Orson Welles a David Lynch, ou agora, de “Inception” a “Black Swan”, é um mundo cão: artifício, cinismo e humor negro. Será? Desminto e desminto-me. No cinema, a inocência vê-se. Deixe-me, Lauren, que eu me confesse. Mas faça de conta, por favor, que nem me está a ouvir.

Eu vi essa inocência numa miúda insolente que rachou ao meio o duro Humphrey Bogart, com olhares oblíquos, respostas velozes e a promessa de vir a correr se ele aprendesse a assobiar. A miúda, descobriu-a o realizador Howard Hawks e ela não tinha sequer 20 anos. Hawks tinha quase 50 e as melhores e as piores intenções. Dormir com ela conta para qualquer das duas hipóteses. Ela era Lauren Bacall.

Bogart, 45 anos, foi mais rápido. Mal a viu, Bogart cercou-a sabendo já que, no fim, seria ele a render-se. O filme há de chamar-se sempre “To Have and Have Not”, uma adaptação de Hemingway em que colaborou Faulkner. É um dos mais felizes encontros de amantes da história do cinema. Atrevo-me: de todas as histórias que em histórias já se contaram. Em cada imagem do filme, nos olhares de Bacall e Bogart, nos gestos, na voz, a história do filme é a história deles. O pano de fundo é uma intriga da II Guerra que mal disfarça a forma como um ao outro se provam e saboreiam. Tudo o que vemos no filme foi verdade na vida: atacaram-se com uma insolente apaixonada gentileza.

Uma noite, durante as filmagens, Bogart telefonou a Bacall. Eram 3 da manhã e estava à espera dela numa rua de Los Angeles, na esquina do Beverly Wilshire Hotel. Juntou os lábios, soprou e saiu-lhe um assobio. Bacall tinha vindo de Nova Iorque com a mãe. A mãe opôs-se, braços em cruz, mas o assobio foi irresistível.

Hawks conta que Bacall era virgem. Nessa noite, talvez na seguinte, deixou de ser. Não perdeu nada. Não me lembro de nenhum filme em que, cena a cena, o rosto de uma mulher tanto ganhe em alegria, confiança, entrega e soberania. E a voz rouca a deixar Bogart a seus pés, no filme e para o resto da vida. Até que o whisky, uma tonelada de cigarros e um cancro na garganta, matando um, os separou aos dois. Pouco importa, há um filme que guarda para a eternidade a inocência dos dois. E agora corre pelas nuvens o rumor de que se reacendeu no infinito e na eternidade a inocência desses dois.

Peço-lhe, Mrs. Bacall que, venha lá do céu confirmar isto tudo. E se, por questões burocráticas de Nosso Senhor, não puder falar, por favor assobie. You know how to whistle, don’t you?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Dear Mrs. Bacall

  1. EV diz:

    Tem razão, ela sabia olhar debaixo para cima, e lado, como nenhuma. No resto também tem razão. Já lhe disse que me fez rir com as neiges do senhor Villon?

  2. Ah, Manel, que texto mais desalmadamente belo.

  3. Fatima MP diz:

    Quanto amor pelo cinema e quanta imaginação … e, na verdade, os dois eram “o par”. Muito bonito!

  4. mónica diz:

    sim, um grande par e um belo texto

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