O Al Capone que Brian De Palma não filmou

 

The Untouchables (1987)

O retrato que lhe faz De Niro em “The Untouchables”

 

Entrou em Alcatraz e o director da prisão não voltou a ter sossego. Choviam telefonemas e visitas. Al Capone era, em 1934, o que ontem foi um O. J. Simpson e hoje é o caso BES.

Prenderam-no por minudências fiscais que uma notória inveja social sobrevalorizou. Na prisão de Atlanta, para onde primeiro o levaram, reconheceram-lhe estatuto, o direito a uma identidade. Cultural, diria. A alcatifa na cela, o majestoso rádio para ouvir folhetins, a cama de água que lhe afagava a embrionária hérnia, não eram mordomias ilícitas, eram a legítima defesa de uma reputação.

Nasceu em Brooklyn, onde as vocações são pré-púberes. Al Capone, imberbe em cima e imberbe em baixo, já geria um negócio de favores femininos e, aos 20 anos, foi o mais jovem CEO de um afamado clube nocturno de Chicago.

Em ambiente hostil, cercado pela incompreensão que hoje brinda um Madoff, um BPN, Capone teve carreira genial. As indústrias do lazer, antepassado popular das agora selectas indústrias culturais, foram a sua paixão. Dinamizou o mercado das bebidas espirituosas e o escape social dos jogos de azar. Fê-lo com management de excelência, benchmark do seu tempo.

A transparente vida pública granjeou-lhe popularidade galáctica. Contou muito a sua bonomia, olhos vivos, boca carnuda e risonha, de que o De Niro dos “Untouchables” é pálido retrato. Os projectos de responsabilidade social fizeram dele um Robin Hood dos anos 20. Assistiu os mais carenciados com programas que um olhar de águia notará serem a premonição do rendimento mínimo garantido que campearia em décadas vindouras.

O seu empreendedorismo e heterodoxia empresarial, a fácil relação com o povo eleitor, geraram a rivalidade dos políticos, num tempo em que as parcerias público-privadas, as líricas PPP, ainda não tinham caldo cultural para florescer.

Diga-se: usaram contra ele a brutal e desmedida arma fiscal. Perdeu essa batalha. Perdeu a segunda, em Alcatraz. O vingativo sistema prisional pô-lo a trabalhos, pão e água, numa regressão face aos progressivos ideais de reinserção social da cela inicial de Atlanta.

Mesmo neste século de subprime, o sarro do preconceito e o atavismo das ciências sociais, ignorando-lhe a pulsão benemérita, continuam a derramar infâmia sobre o seu amor à coisa pública, o seu inovador modelo de gestão redistributiva.  De Palma tem de o voltar a filmar.

Al Capone

Contou muito a sua bonomia, olhos vivos, boca carnuda e risonha

Publicado no Expresso, dia 9 de Agosto

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a O Al Capone que Brian De Palma não filmou

  1. llopes49 diz:

    Cá na santa terrinha há vários rapazes assim,mas são mais sabidões,nenhum irá experimentar a excelencia do Sistema Prisional ,nem na Carregueira nem em lado algum .Que bom viver no Paraiso Portugal.

  2. EV diz:

    Não sei se os seus textos têm uma popularidade galáctica, mas e o que gosto de repeti-los aqui, uma semana depois? Ri-me, claro, como se fosse de fresco, só que melhor por já saber que ia rir.

    A despropósito: uma vez no cinema, estava a repetir Tess com a minha tia, e já sabia que quando ele levantava o chapéu tinha uma folha de couve na cabeça, ri tanto, e o riso é contagioso, que ainda ele estava de chapéu na cabeça e já o cinema era uma gargalhada pegada. A minha tia é não achou graça nenhuma…

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