O raio do irlandês

 

YEATS

 – Querido sobrinho, sabe que vai ter de me aturar nos próximos 15 dias, não sabe?

– Estimada Tia, bem sei e tenho todo o gosto. Junta-se a nós o Nuno, emérito designer deste blog. Os nossos leitores não sabem, porque os seus outros sobrinhos são muito discretos, mas a cada 15 dias, há uma dupla de animadores de serviço ao blog. Vêm aqui puxar pelo nosso belo público, tal qual o locutor de serviço no Estádio da Luz…

– O meu sobrinho quis dizer Catedral, não quis? Não se envergonhe, mostre lá essa camisola vermelha.

– A Tia, em vez de estar a puxar por mim, não quer puxar pelo assunto que aqui nos traz?

– Não seja apressado… vê-se mesmo que é homem. Mas se quer começar, olhe, hoje é sábado, é dia de Está Escrito. Inventamos um a meias? Não faça essa cara de espanto, como sou uma mulher organizada, trouxe este livrinho é tudo. Tenho há 22 anos, comprado em Londres, este “Collected Poems”, do Yeats.

– A Tia vai só deixar-me dizer uma coisa. Eu acho muito bem que traga o Yeats, mas não a imaginava rendida a um poeta como ele. O Yeats é uma catedral anacrónica.

– Porque é que diz isso, por causa dos lagos e bosques irlandeses, das fadas e fantasmas? Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days! / Come near me, while I sing the ancient ways …

– Oh querida Tia, faço-lhe já, para acompanhar essas ancient ways, uma deliciosa lista de anacronismos que nunca mais acaba. São as revivalistas lendas celtas, um nacionalismo que derrapa em arrebatamentos fascistas, irrupções de um bem munido chauvinismo. Eu gosto muito, mas não a vejo a si, querida e tão moderna Tia, a levantar-se em armas contra a Inglaterra e contra o nosso sensato mundo de tolerância e indiferença.

– Manuel, Manuel, meu tão certo e secretário Manuel…

– Ah, ah, ah, estivestes bem Tiazinha.

– Vá lá, não seja condescendente. Não me diga, Manel, que não admite que tudo isso são pretextos, os pretextos de um homem, de um poeta que queria mais do seu tempo. Queria tanto do seu tempo que não podia fazer outra coisa que não fosse lutar contra o que nesse tempo eram convenções redutoras. Por querer amar o seu tempo, estava em guerra com ele.

A Tia tem razão na guerra, não sei se tem razão na paz. Ele estava em guerra contra esse começo de século, essas primeiras décadas do século XX. Mas duvido que amasse esse tempo ou que o achasse regenerável. Talvez, talvez, querida Tia, tal qual o aviador irlandês, cuja morte ele antecipa, Yeats fosse um daqueles que Those that I fight I do not hate / Those that I guard I do not love…

– E não me diga que não vê nisso uma certa nobreza. Sabe que o Ezra Pound dizia que a nobreza – ele dizia a curious nobility – era o elemento constante da escrita do Yeats…

– As coisas que eu aprendo consigo, Tia. Tem de me dizer onde é que o Pound disse isso.

– Não me está a fazer nenhum exame, pois não. Venha cá, olhe aqui

– Não estou a ver…

– Chegue-se, homem. Encoste-se a mim para ver, com a sua provecta idade já se pode encostar à vontade, que não há-de vir nenhum mal ao mundo.

– Vá lá doce e fresca Tia, a que nobreza, que não seja a sua, se encosta o Yeats?

– À nobreza do amor, querido sobrinho. Mesmo quando é um amor amargamente rejeitado. Ele tem, nos primeiros poemas, poemas que podiam ser de maturidade. A mim não me espanta que um velho escreva, nostálgico, sobre a juventude. O que me deixa estarrecida é que um jovem poeta adivinhe, impetuoso e comovido, o que pode ser a futura velhice.

Touché, querida Tia. Está a falar, e tem razão, do When you are old and grey and full of sleep. É um devastador poema de amor, mas não se esqueça que é tanto um poema como é um eco. Eco de Ronsard e eco de Petrarca.

– É genuíno, meu menino. Yeats escreveu-o para essa Maud Gonne que lhe deu com os pés…

– Como Ronsard o escreveu, linda Tia, para uma amena e francesíssima Hélène e Petrarca para a sua etérea Laura. A primeira estrofe de Ronsard molda, a gesso, a primeira estrofe de Yeats:

Quand vous serez bien vieille, au soir a la chandelle,
Assise auprés du feu, devidant & filant,
Direz, chantant mes vers, en vous esmerveillant,
Ronsard me celebroit du temps que j’estois belle
.

– Engana-se, menino Manuel, se quer, com isso, reduzir o poema de Yeats a um certo esteticismo. O When you are old and grey and full of sleep é um poema sincero e é a expressão poética da realíssima paixão de Yeats pela Maud Gonne.

– A Maud era uma Maureen O’Hara avant la lettre. Belíssima, devia deixar o Yeats a arder, e com um fogo que queimaria qualquer Ronsard ou Petrarca. Eu rendo-me a si, Tia, como a Tia se rende a ele, Yeats. Por literário, simbolista ou decadentista, que o raio do irlandês inicialmente tivesse querido ser, este poema dele é, pessoanamente, o poema de um tão completo fingidor que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

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3 respostas a O raio do irlandês

  1. EV diz:

    A converseta dos dois é de Petrarca para cima e a roçar, perdão, com Ronsard bem citadinho.

    • Escrever é Triste diz:

      Era o jovem Yeats, querida sobrinha. Ainda não tinha pernas. Uma era a do Petrarca, a outra a do Ronsard.

  2. nanovp diz:

    pois é, que erudição poética, só por isso já vale a pena ter a Tia, bem acompanhada claro, aqui tão perto….

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